quarta-feira, 30 de junho de 2021

SOFIA 


Era um homem muito distinto, que resolveu largar toda a sua fortuna e aquela família esnobe, porque ele sonhava em ser feliz.

Mudou-se para a praia do Porto e comprou um barco apenas mas ele tinha dinheiro para comprar vários barcos, pois o sonho dele era tão simples. Tudo o quê ele queria. Era ser pescador. E seu nome era Pedro.

Pedro era um homem muito bom, rico e sonhador. Sonhava tantas coisas, mas o maior de todos era construir uma vila de pescadores. Começou usar o seu dinheiro para realizar seu sonho, construiu várias coisas para gastar seu dinheiro pois ele não teve filhos mesmo tendo sido casado. A mulher com quem ele foi casa só desejava mesmo era gastar o seu dinheiro e foi por esse motivo que se separaram. Pedro começou a construir a vila a qual ele sonhava. Comprou vários terrenos naquela localidade e contratou um engenheiro e já foi logo explicando como ele gostaria que fosse tudo . Começaram as construções e fez casa para os pescadores, escola, hospital, farmácia, restaurante e um pequeno shopping center com muitas lojas que gerou vários empregos e ele foi reconhecido por toda a população lá daquele lugar.

Então todos felizes resolveram lhe fazer uma homenagem e construíram um monumento de Pedro naquele vilarejo. E ainda fizeram um lindo discurso para inaugurar o monumento. Por isso os moradores de lá resolveram chamar de Vilarejo do Pedro mesmo E com todo aquele dinheiro Pedro era um homem muito humilde e generoso.

E foi nesse vilarejo que Pedro conheceu Elisabete começaram a namorar e logo se casaram tiveram três filho, Leonardo, Adilson e Sofia. Mas Sofia nasceu com Síndrome de Down e necessitava de mais atenção e cuidados mas para Pedro e Elisabete isso não era problema porque entre eles existia muito amor.

Sofia era linda e todos gostavam dela. Até que um certo dia apareceu naquele belo vilarejo de pescadores um rapaz chamado Miguel. Mas o que ninguém imaginava é que Miguel era um homem fora da lei e foragido da polícia. Miguel era descarado que tentou estuprar Sofia aquela linda e indefesa garotinha. Graças a Deus que Stiven um pescador muito respeitado e respeitoso viu e salvou a vida de Sofia. Chamou o pai de Sofia e contou o que havia acontecido, Mas ele não queria acreditar até que Elisabete contou para o marido que Miguel tinha sido seu namorado e tinha ido preso por estupro por ter estuprado a própria irmã que foi embora e nunca mais voltou para aquele lugar. A mãe morreu de câncer de tanto desgosto que ficou dele fazer isso, cometer esse crime com a própria irmã e o pai de Miguel depois de ajudar a polícia prender o próprio filho não aguentou de tanta vergonha e acabou se suicidado , se matou enforcado em uma árvore na frente da igreja da cidade onde moravam que era ali pelas proximidades. Mas o que Pedro não perdoava era que Elisabete sabia de toda essa história e não contou que Miguel era um bandido e por isso começaram as brigas de Pedro e de Elisabete, mas por causa de Sofia tiveram que continuar juntos, mas Elisabete fez de tudo para reconquistar Pedro. Elisabete foi até a polícia do vilarejo e contou tudo o que ela sabia sobre Miguel e graças ao que ela sabia conseguiram prende-lo de volta.

Pedro a pedido dos filhos resolveu então perdoar Elisabete. Até colocaram Sofia estudar balé que era o sonho da menina. Sofia tornou-se uma bailarina muito famosa mesmo sendo uma menina especial e viajou o mundo dançando e sempre com o apoio da família. Mas Pedro queria criar a filha para viver naquele vilarejo é assim aconteceu até que Sofia se queixou ara o pai que mesmo estando feliz e a mãe sempre a acompanhando nas suas viagens ela queria uma vida tranquila. E por isso Pedro construiu uma escola de dança para Sofia ensinar todas as crianças dançar . Sofia ficou tão feliz com a atitude do pai construir uma escola só para ela que resolveu nunca mais sair daquele vilarejo porque lá era o seu lugar. E assim naquela família todos foram sempre muito felizes juntos. 

Escritora Jacqueline Chaves

SOBRE FATOS E OPINIÕES



Acontece assim: a pessoa te manda, sei lá, o link de um documentário “provando” que a Terra é plana. Você responde que não vai assistir porque né, pelo amor de Deus, e ela rebate dizendo que você se diz a favor da liberdade de expressão, mas só escuta quem pensa como você.

MEU ANJO, a Terra não é redonda porque eu penso que é. Eu posso achar que ela é triangular, hexagonal, achatada, em forma de uma cuia de chimarrão. A Terra seguirá redonda pois redonda ela é. Fim.

Aparentemente, se eu afirmo que sou o Napoleão Bonaparte, eu automaticamente me torno o Napoleão Bonaparte já que ESSA É A MINHA OPINIÃO.

Trata-se de um descolamento da realidade que, mais do que impressionar e irritar, assusta. Afinal, acreditar que a sua opinião se impõe aos fatos é o caminho mais curto, rápido e fácil para a loucura.

E como já disse o velho Bukowski, é melhor não brincar com a loucura. “A loucura não brinca”.

Jana Lauxen

IDA E VOLTA, VOLTA E IDA




A televisão muito no alto faz meu pescoço doer depois de alguns minutos. Puxo a cadeira um pouco mais pra trás na tentativa de não ficar tão tensionado, mas a imagem vai diminuindo e só vejo as figuras se movendo, não sei mais quem é o quê. É melhor voltar a ler.

Tiro a Bíblia da gaveta esquerda da mesa e coloco sobre o móvel de madeira. Começo a ler uma das páginas marcadas na plena certeza de que em pouco tempo vou cochilar. Até que alguém me grite “Seu José!” do outro lado do portãozinho. Aquela pequena entrada que já foi “um portãozinho branco do lado do teatro” agora foi pintada de chumbo.

Deve ser oito horas da noite e uma das meninas do prédio passa por mim. “Olá, Seu José! Tudo bom?”. Respondo confiante “Tudo ótimo”. Aquele pequeno roteiro de cada morador que passava por ali só o era dito por simpatia, ou alívio de consciência. Dizem que cumprimentar seus empregados é uma virtude. Pois bem.

Ela passa de braço dado com um menino um pouco mais alto e um tanto magro. Os dois parecem com um pouco de pressa, talvez tenham hora marcada em algum lugar. É segunda a noite, será que esses meninos saem à essa hora de uma segunda? Ah, são universitários, devem ir pra algum bar beber.

Alguns adultos vão chegando do trabalho, com a cara cansada e só esperando por um banho. Ainda tem a louça pra lavar, se não não dá pra fazer a janta. Será que fica muito ruim comer só um pão? Pedir uma pizza pode não ser tão ruim. É segunda feira a gente merece.

Algumas velhinhas passam para fazer compras de emergência no mercado em frente. “Eu comprei a carne, a batata palha e até o arroz, mas esqueci o molho de tomate! Acredita?! Agora vou ter que voltar lá e enfrentar essa fila só por causa do molho”. Sem querer ser um tanto quanto chato, mas não é como se elas tivessem muito o que fazer, não é mesmo?

Não sei mais se ainda são 21 horas ou já são 22. A menina “simpática” chega na portaria com outro menino. Da altura dela, talvez um pouco menor, ruivo e meio gordinho. Eu poderia dizer que é fortinho, mas também é gordinho. Parece meio desajeitado, acho que nunca teve aqui. Não lembro de tê-lo visto. Entram no elevador com um uníssono “boa noite”.

Talvez seja mesmo uma boa noite. O clima tá quente, uma correntezinha de ar entra pela porta e passa pelo corredor. Até a avenida parece mais calma. Alguns ônibus freiam próximos ao prédio de tempos em tempos, mas não reparei nenhum barulho de moto até agora. Ah, era muito cedo pra falar isso. Algum dos homens de sempre tiveram que passar aqui correndo.

O canal da igreja tem alguns pastores falando ferozmente. Deve ser interessante ir em um templo desses. Tanta gente em comunhão com aquilo. Me parece uma sensação boa sentir que todos pensam coisas parecidas com o que você pensa. Tem tanta coisa acontecendo nesse mundão que não dá pra acompanhar. Essas ideias que aparecem por aí, só arrumam moda.

Queria pelo menos tá deitado. Essa cadeira não é muito ruim, mas me cansa ficar sentado tanto tempo. Também seria uma boa comprar um lanche aqui do lado. Será que alguém se importaria se eu pedisse? Ah, é melhor deixar quieto, também não devo comer essas porcarias. Quando eu chegar em casa como minha janta e tá tudo resolvido.

Já são 23:30 e o menino inseguro sai do elevador. Ajeitando o cabelo ruivo parece meio envergonhado, mas contente. Mexe no celular como se tivesse muita coisa acontecendo naquele pequeno aparelhinho. Apita uma, duas, três vezes, até que ele aperta alguns botões e só escuto ele vibrar. Pronuncia um “boa noite” baixo e passa pela porta com pressa.

Ele definitivamente tava meio perdido. Mas já deve tá indo pra casa, não é possível que ainda vá sair. A menina ficou pra trás, será que tá tudo bem? Bem, ele não parecia chateado, não devem ter brigado. Também não demoraram muito. Sempre me pergunto quantas coisas acontecem ao mesmo tempo dentro dessas dezenas de apartamento.

As senhorinhas, os adultos e universitários. Cada um tão diferente do outro. Agora a meia noite, o que devem estar fazendo? A maioria deve tá dormindo, mas não é nada certo. Dona Deise pode estar cozinhando ainda pro seu filho. Enquanto a moradora do 404 deve ter acordado no meio da noite pra tomar seu calmante. Pediu há pouco tempo para tocar pro vizinho debaixo pedindo pra fazer menos barulho.

Tá aí, quem faz uma festa em uma segunda feira a noite? A semana acabou de começar. Será que eles não trabalham? Devem fazer algo da vida além de estudar. Será que estudam mesmo? Os vejo sair daqui hora ou outra e demorar a voltar, dá tempo de terem algumas aulas, mas mantenho minha dúvida.

A menina sai do elevador com outra roupa. Bem menos arrumada. Uma calça jeans e uma camisa que costuma usar pra ir no mercado. Passa ainda mais apressada que mais cedo. Parece tentar desbloquear o celular, sem muito sucesso. Assim que abre a porta de vidro antes do portão, um carro preto para próximo à calçada. Deve ser um Uber.

Esse negócio é meio perigoso. Você não sabe quem é e não tem nem um ponto certo pra procurar o cara depois caso alguma coisa dê errado. Não sei se confio não. Todo mundo usa isso como se fosse resolver todos os problemas de trânsito. “Ah, é mais rápido que o ônibus e nem é muito caro”. Queria saber o que aconteceu com o discurso do “transporte coletivo”.

A verdade é que ninguém se importa com essas coisas não. Usar ônibus e deixar de comer carne, são duas coisas que adoram vender o discurso mas tem muita gente que só faz isso pra economizar uma grana. Já viu quanto que tá o quilo da carne? Com o mesmo dinheiro dá pra comprar bastante ovo.

Poxa, um mexido a essa hora ia bater muito bem. Arroz, ovo, cebola, linguiça e um pouco de pimenta. Consigo até sentir o cheiro. É a refeição clássica da madrugada. Se eu não tivesse que tá aqui ia fazer um panelão desse, com certeza. Deixava até a janta de lado. Jéssica ia ficar meio chateada, mas são desejos, ela iria entender.

Essas horas são as mais chatas. Já passou da meia noite mas ainda não acabou o horário. Já é o dia seguinte, tá um pouco mais próximo do fim. Mas não posso me contentar com isso, ainda tem muito o que enfrentar. Só espero que dessa vez o caminhão do mercado não fique apitando de 5 em 5 minutos. O tempo não passar é horrível, mas me deixa com meu silêncio.

Duas horas da manhã e um carro branco para na calçada. Já vi esse carro por aqui. A menina sai dele, meio tonta, me parece só cansaço mesmo. Se encosta de leve no portão e aperto o botãozinho branco na parede pra ela entrar. Passa pelo primeiro espaço da entrada e abre a porta de vidro com certo esforço.

“Boa noite, Seu José”. “Boa noite”. Sinto que deveria saber seu nome. Passou tantas vezes por aqui. Mas acho melhor não perguntar, logo depois vou esquecer e perguntar pela segunda, terceira e quarta vez é sempre mais vergonhoso.

Espera o elevador como quem só pensa na cama pra deitar. Duvido que vá dormir agora. Talvez toda essa viagem de ida, volta, ida e volta tenha cansado. Espero que sim. Essas crianças precisam dormir um pouco, se não vão acabar surtando. Acham que tudo é brincadeira, tudo é festa. A vida tá aí e é bom prestar atenção, porque de repente ela passa e é só mais uma noite de arrependimentos.

Mas quem sou eu pra falar o que ela deve fazer… É bem grandinha, sabe o que faz da vida. Espero eu. Serão estes os novos adultos? Não me parecem ter jeito pra isso. Ainda bem que não vou ficar por muito mais tempo aqui.

Fernanda Bonfim

GANGUES DE PASSO FUNDO


Leandro Malósi Dóro


QUE BOM QUE ALGUÉM LUTOU POR NÓS


Raul Seixas foi o cara quem me levou a conhecer melhor e mais profundamente o golpe de 64. Eu tinha 11 ou 12 anos e era maluca pelo Maluco Beleza. Foi ouvindo “Mamãe eu não queria” e “Metrô linha 743”, e lendo sobre suas músicas censuradas e a tortura que sofreu dos milicos, que passei a me inteirar deste passado tão recente que “terminava” na mesma época em que eu nascia. Não tenho memórias de estudar sobre a ditadura militar brasileira na escola. Talvez tenha matado esta aula. Eu matava muitas aulas. Ou talvez o assunto realmente passou batido no colégio São José Notre Dame de Não-Me-Toque/RS.

Mas eu pensava lá no final dos anos 90: ufa, que bom que passou, né? Sorte a minha não ter vivido esta época. Que bom que alguém lutou por nós.

Ao mesmo tempo, me enchia de admiração e gratidão por aqueles que resistiram, que lutaram, que questionaram, que se expuseram ao perigo iminente. Por aqueles que morreram e “sumiram” feito fumaça no ar.

Então veio 2018 e o que parecia passado se tornou presente. Até hoje me lembro que, conversando com uma amiga nos primeiros meses deste ano fatídico, ela perguntou: “Jana, você acha que o Bolsonaro ganha?”. E eu, na minha patológica ingenuidade, respondi: “Tá louca? Capaz!”.

Conhecemos o resto da história.

Hoje, quando me lembro da Jana de 12 anos impressionada com todo aquele horror da ditadura, que pensava “que bom que passou, né?”, “que sorte a minha não ter vivido esta época”, eu me vejo aqui: em um Brasil com mais de meio milhão de cadáveres e um presidente que debocha da vida e do povo, de mim e de ti e daqueles que amamos e morreram por conta de um vírus para o qual já existe vacina HÁ MESES. Mortes que poderiam facilmente ter sido evitadas. Um desgoverno que, em pouco mais de 15 meses, já matou milhares de vezes mais que a ditadura em 21 anos. Uma tropa de aloprados carniceiros que preferem cloroquina e propina e não vacina. Um Brasil onde muitos ainda aplaudem e acham bonito os desmandos assassinos do genocida-chefe e mugem feito gado atrás do berrante.

São, novamente, anos de chumbo. De escuridão e obscurantismo. De trevas e dor e luto e raiva.

“Que bom que passou, né?”. Só que não.

Nestas horas, recordo-me mais uma vez daqueles que lutaram e resistiram antes de eu nascer. Que ainda estão aqui, a lutar e resistir. De fato, nenhuma conquista é vitalícia, ainda mais as relacionadas a direitos humanos. Bastou uma distração, uma soneca fora de hora e f*deu.

Por que escrevo isso? Justamente porque penso naqueles que lutaram contra a ditadura. No que eles acreditavam? Como se sentiam? Por que não desistiram?

Eles pensavam em nós?

Com certeza pensavam ou não teriam se dado ao trabalho. E se eu nasci em um país que engatinhava na democracia, foi porque muitos sangraram, doeram, morreram e desapareceram antes de mim.

Logo, eu pergunto: teremos, hoje, o direito de descer do ringue? De perder a fé e a esperança? A quem convém que a gente desista, se ajoelhe e se entregue? Que a gente vá embora? Que a gente lave as mãos?

Eu acho que não temos esse direito.

Temos é o dever e a obrigação de resistir. De retribuir o que muitos fizeram por nós, antes de nós. E a resistência vai muito além da luta coletiva – apesar de a luta coletiva ser absolutamente essencial. Tem a ver com o indivíduo. Tem a ver contigo e comigo.

Tem a ver com continuar acreditando que somos maiores que essa merd@ toda. Que não estamos sós. Que o dia sempre amanhece e a primavera sempre chega e a chuva sempre passa e o sol sempre renasce. SEMPRE. Não é metafórico. É real e cientificamente comprovado.

Se você se sente impotente diante de tudo, anota essa dica: continue acreditando – essa é a resistência em seu estado puro e natural.

Continue criando, amando, sentindo, tocando, gozando, chorando, beijando, sorrindo, se emocionando, abraçando, observando, dançando, rimando, brincando. Mantenha o seu pulso pulsando e o seu sangue correndo vermelho e quente em suas veias.

Continue vivo, por dentro e por fora, por favor!

Nós devemos isso ao futuro.

Para que, amanhã, nossas crianças possam pensar sobre hoje: “que bom que passou, né?”.

“Que bom que alguém lutou por nós”.


Jana Lauxen

 SUPER HEROÍNA DA SOCIEDADE CAPITALISTA DE CONSUMO DESENFREADO



Leandro Malósi Dóro

A GORDOFOBIA POR TRÁS DO DISCURSO DA SAÚDE


Há um tempo uma amiga que está cursando nutrição postou uma foto em que mostrava o interior do corpo de duas pessoas, uma obesa e outra não. Nesta imagem estava escrito: “Obesidade é uma doença e deve ser tratada como tal”. Essa imagem me impactou muito, não porque sou obesa, porque não sou; mas porque na hora eu não sabia o que pensar daquilo.

Obesidade é um problema de saúde, isso é inquestionável, mas o que me incomodou tanto foi o discurso que aquela imagem estava tentando legitimar. Pois bem, muitos de nós sabem o que é gordofobia e muitos não acreditam que ela exista, mas independente do que acredite, quero propor uma reflexão. Sinta-se a vontade para logo que terminar este texto, desconsiderar tudo o que eu disse, se assim achar melhor.

Sempre que reencontramos alguém que não víamos há muito tempo reparamos em cada mudança; no jeito de agir, falar, nas expressões e claro, questões estéticas como o peso. Não há uma mulher que não tenha ouvido um “Nossa, mas você engordou, não é?” e junto desta frase tenha recebido um olhar de desaprovação e julgamento. Logo depois há todo um discurso velado de preocupação com a saúde, em que se pergunta sobre o que a pessoa está comendo, se já começou alguma dieta e se se consultou com algum nutricionista.

Podemos acreditar que isso realmente é uma preocupação com a saúde da pessoa, afinal, alterações bruscas no peso podem afetar fortemente nosso organismo. Mas a preocupação com a saúde se mostra como um disfarce em cenários como este, porque isso não acontece quando reencontramos algum conhecido que perdeu muito peso. No máximo pergunta-se qual foi a dieta que ela seguiu. Prova disso são os relatos de dietas absurdas que são seguidas e recomendadas e não opinamos sobre a saúde da pessoa.

Uso de um exemplo pessoal. Há alguns anos passei por um momento muito difícil na minha vida e deixei de me preocupar com a minha alimentação. Quando contei para uma “amiga” sobre os meus problemas e preocupações, ela me respondeu com um entusiasmado “Pelo menos tudo isso serviu pra você emagrecer um pouquinho”. Onde está a preocupação com a saúde? Ignora-se totalmente que para se “emagrecer um pouquinho” deixei de consumir nutrientes importantes e meu corpo começou a consumir o estoque de gordura que havia no meu organismo.

Não preciso levar a extremos para me fazer entender mesmo que eu veja diariamente diversas meninas contando as horas que estão sem comer. Porque o problema está no que consideramos normal. O problema está no que já se tornou banal, já faz parte do cotidiano e das interações sociais. Como deixar de ir em um loja com forma menor que as calças que seriam 42 viram 44, pelo simples fato de se recusar a entrar em uma calça 44.

Aquela imagem que foi postada no Facebook pode ter um efeito incrível de nos alertar sobre os perigos da obesidade, mas claramente tinha o intuito de questionar os movimentos sociais que pregam que o gordo é lindo. Fica até complicado mensurar a irresponsabilidade da pessoa que publicou aquela imagem. Por mais que essa talvez não tivesse maldade no que fez, esqueceu que o “gordo” que tanto ouvimos não é o obeso.

Quando falamos de “ser gordo” estamos entrando em uma área complicada. Nesse discurso entra uma mulher que deveria pesar 60 quilos e se impede de chegar aos 65 porque isso para ela já é ser gorda. Assumir que “ser gordo é lindo” é primeiro considerar essa grande parcela da população que se reprime de viver diversas experiências pela possibilidade de “ser gordo”.

Se quisermos ir mais além e falar das pessoas que são consideradas obesas, ainda acho que não devemos continuar com a política de beleza que os oprime. Porque neste discurso desconsideramos diversas pessoas que estão passando por procedimentos médicos e fazem uso de medicamentos para manter sua qualidade de vida. Por mais que a obesidade lhes ofereça risco de vida, há coisas muito mais perigosas para se enfrentar. Imagino que estas pessoas que sofrem tanto não merecem nosso julgamento as dizendo que não são bonitas.

Toda pessoa merece ter sua beleza exaltada independente das condições. Novamente, o discurso médico está nos cercando de hipocrisia e legitimando nossos preconceitos. A ciência tem valor inestimável para a humanidade, mas não podemos perder o senso crítico na análise das interações sociais.

Fernanda Bonfim

DIA INTERNACIONAL DO ORGULHO LGBTQI+: ORGULHO DE QUÊ?

Dandara dos Santos, travesti morta em 2017


Agora é madrugada do dia 30 de junho; último dia do Mês do Orgulho LGBTQI+. O dia 28 de junho (anteontem) é marcado como Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+. Nesse, que deveria ter sido um dia de valorização, de enaltecimento das vivências, das lutas, da resistência e da influência dessas pessoas na cultura, nas artes e na sociedade, vemos, infelizmente, muitos casos de violência, abusos e mortes dessa população tão marginalizada, tão invisibilizada, vítima de barbáries e discriminação.

Ao longo dos anos, vem se perpetrando atos abomináveis de violência contra pessoas LGBTQI+. Atos de tanta perversidade e horror que gelam meu sangue; ainda mais no frio de 3°C que faz aqui, nessa madrugada, em Passo Fundo. Frio, esse, que assola tantos moradores de rua; aos quais estão incluídos travestis, transexuais e tantos outros LGBTQI+ que foram sumariamente expulsos de casa apenas - e somente apenas - por serem LGBTQI+....

Vou elencar aqui alguns casos, que ocorreram dos últimos anos para cá, de violência contra pessoas LGBTQI+. Vamos começar pela madrugada do dia 2 de dezembro de 2014. A casa da travesti Pâmela de Souza Coelho, na época com 23 anos, e localizada no bairro Cidade Morena, na saída para São Paulo, na cidade de Campo Grande, no MS, foi queimada por um homem; homem, esse, desconhecido por ela. Fazendo com que ela perdesse o pouco que ela tinha. Em 15 de fevereiro de 2017, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza, no Ceará, a travesti Dandara dos Santos, de 42 anos, foi brutalmente espancada com chutes, murros, chineladas e golpes de pedaços de pau. Sem condições de se manter em pé, foi obrigada a entrar num carrinho de mão; após ela entrar no mesmo e ser levada para outro local, foi assassinada a tiros. De forma cruel e torpe. No final do mês de janeiro de 2019, a travesti Quelly da Silva, como era conhecida, de 35 anos, foi morta e teve o coração extirpado da caixa torácica, após o criminoso ter tido relações sexuais - de forma não consentida, aposto - com a vítima, que se encontrava sozinha no bar de propriedade dela e da família do companheiro dela, no bairro Jardim Marisa, na região de Campo Belo, em Campinas, São Paulo. Além de deixá-la com o rosto lesionado e o tórax aberto, colocou uma imagem sacra na cavidade aberta e levou dinheiro e pertences do local, além do coração extirpado; o qual enrolou em um tecido e escondeu em um móvel de sua casa. No 25 de junho desse ano - numa quinta-feira - uma mulher trans, identificada apenas como Roberta, teve 40% do corpo queimado e um braço amputado, após um adolescente ter ateado fogo na mesma, no CAIS Santa Rita, zona central de Recife, em Pernambuco. Quando a Polícia foi acionada e chegou ao local, encontraram a vítima ainda em chamas. Ela está internada em estado grave no Hospital da Restauração.

São duas e meia da madrugada e não consigo conter a ira e o horror em ter de ler e digitar em meu velho notebook esses casos aterrorizantes. Eles são uma amostra de como nossa sociedade hetero, cis, branca, burguesa, judaico-cristã tem tratado as minorias. Especialmente a minoria LGBTQI+. Enquanto estava redigindo esse texto, por várias vezes tive de parar e, andando pela casa e fumando meus cigarros, conter meu ímpeto de esmurrar as paredes e chorar copiosamente pelas vidas vilipendiadas, torturadas, humilhadas, violentadas e brutalmente mortas por uma sociedade pútrida, que cheira à morte e à perversão; que violenta e ceifa a vida de pessoas inocentes e, ainda por cima, defende ferozmente seus algozes. Isso sem contar com o abandono de jovens LGBTQI+ por parte de suas famílias, o estupro de lésbicas para, segundo seus estupradores, uma "correção sexual" de suas vítimas; estupro, esse, vindo até de familiares delas e a estigmatização dos assexuais. Sem contar, também, com famílias que espancam e matam filhos e familiares gays, por considerarem uma "mácula" na imagem da familia e outras crueldades.

Apesar de vislumbrar-se um tímido raio de arco-íris rumo à esperança, é gritante o quão forte e arraigado é o preconceito, a invisibilização, a marginalização e a intolerância contra essa parcela da população brasileira. Pois, para a maioria da população nacional, se você não é hetero, cis, branco, judaico-cristão e provido de posses, você tem uma arma apontada, por essas mesmas pessoas, para sua cabeça; engatilhada e pronta para desferir o disparo mortal. Sua vida vale menos que um pedaço de merda.

Analisemos três dos quatro casos citados. Primeiro, o de Dandara dos Santos, em 2017. Dandara, segundo a irmã dela, era muito querida por todos e não deixava de fazer um favor sequer às pessoas. Ela afirmou, também, que era vítima de preconceito. “Ela nunca dizia um não. Ela podia estar cansada, mas era sempre prestativa. Para onde a gente pedia para ela ir, ela ia. Ela nunca dizia um não. Sobre os preconceitos, ela foi para o Bairro Jurema e uns caras bateram nela. Ela foi até para o hospital”, relatou Sônia Maria, em reportagem ao G1 Ceará (o link dessa e de outras notícias postarei no fim do texto). Vejam bem; se ela era tão querida por todos, ela era tão prestativa e ajudava tanto as pessoas, o que essas pessoas, as quais ela ajudou, estavam fazendo quando ela estava sendo linchada e morta? Assando um bolo para comer no café da tarde? Fazendo uma oração para o seu santo de devoção, pedindo paz e justiça e por um mundo melhor? Piada! Porque não foram defendê-la de seus algozes? Se essas pessoas a quem Dandara ajudou tivessem um pingo - UM PINGO! - de humanidade e a socorressem quando ela estava perdendo a vida, essa morte teria sido evitada. Aposto que essas mesmas pessoas ajudadas pela Dandara, que morreu por causa da intolerância e do preconceito, devem estar até hoje rezando pela sua boa alma. Cristãos de araque! Não fizeram nada e ficam aí posando de santos.... Nojo dessa gente! O caso da Quelly, em 2019, foi ainda mais assustador. Sorrindo - veja bem; SORRINDO! - e dizendo frases desconexas, Caio Santos de Oliveira disse o seguinte: "Ele era um demônio, eu arranquei o coração dele. É isso. Não era meu conhecido. Conheci ele à meia-noite". Demônio é VOCÊ, Caio, seu monstro! O que o Caio fez não tem explicação lógica nem sequer justificativa. Foi um ato atroz, desumano, monstruoso, indefensável. Mas, claro, sempre tem quem defenda o "coitadinho". Afinal a vítima não era hetero, não era cis, não era branca, etc.. Era apenas um ser humano descartável, à vista da sociedade "padrão". E sabem o que aconteceu, meus amores? Ele foi ABSOLVIDO! Pois é! Com a alegação do psiquiatra de ele ter esquizofrenia - palhaçada! - ele foi internado pelo prazo mínimo de dois anos num hospital psiquiátrico. Caio alegou que ouviu um "chamado de Deus", dizendo que Quelly era um "demônio".... Gente! Uma pessoa como essa não é esquizofrênica; é PSICOPATA! Não deve estar mais no convívio da sociedade; conforme dito pelo companheiro da vítima, com quem conviveu por três anos e afirmou que Quelly era uma pessoa tranquila.... Esse psicopata é um risco ambulante! Enfim.... E esse ano, temos a infelicidade de ver, mais uma vez, um jovem, um adolescente atear fogo em uma pessoa viva, sem aparente motivação. Agora, foi com uma mulher trans. Vocês se lembram do índio pataxó, que teve 95% do corpo queimado e faleceu horas depois de chegar ao hospital, né? Um dos algozes do líder indígena era menor de idade! Para vocês verem, leitores amados, que a juventude de hoje está tomando rumos perigosos. Há mais de duas décadas, foi um índio. Nos dias de hoje, uma mulher trans. E com isso, as minorias vão sendo cada vez mais massacradas. Na certa, ele vai ser internado numa, como se chamava no meu tempo (calma, não sou tão velho assim), unidade da FEBEM dessas da vida, cumprir o resto da adolescência lá e, quando fizer 18 anos, será reintegrado à sociedade. Mais um facínora, mais um psicopata nas ruas! E os passadores de pano cristãos, de flanela em punho, prontos para relativizar tudo....

Para não dizer que só falei de mulheres trans e travestis, aí vai mais dois casos de violência contra outras pessoas LGBTQI+: Em uma noite do ano de 2014, uma jovem foi abordada por dois homens e foi estuprada por eles, por ser e ter a aparência de lésbica. E há cerca de um semana atrás, no dia 22 de junho deste ano, o jovem Gabriel Carvalho Garcia, gay, de 22 anos, estava em uma barbearia, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, se preparando para cortar o cabelo quando um homem, mascarado, aproxima-se de Gabriel e efetua de dois a três disparos contra a cabeça do jovem.

E esses foram alguns dos casos que aconteceram com a comunidade LGBTQI+ nesses últimos anos. E se não pararmos para refletir e lutar pela resistência e pelos direitos, pela igualdade e pelo respeito que são diuturnamente negados à essa comunidade, vamos continuar vendo pessoas LGBTQI+ sofrendo e sendo martirizadas. E um pequeno raio de esperança veio de onde? Das crianças! Através da propaganda do Burger King, onde mostra crianças falando sobre a existência de pessoas LGBTQI+ e relações homoafetivas. Mas acha que isso sensibilizou a população? Pelo contrário, meus queridos! Gerou uma puta onda de ódio no país todo! Simplesmente porque utilizaram crianças para falar de amor e respeito para com as pessoas LGBTQI+; crianças, essas vindas de lares LGBTQI+! Foi só o Burger King fazer isso que o gado começou a mugir e balançar os chifres.... Gente de todos os lados - até do lado defendido! - estava contra a campanha, dizendo que era errado "doutrinar" crianças, que era errado fazer elas falarem e militarem por coisas que a mente delas não compreende, e blá blá blá.... Baboseira! Primeiro, a idade das crianças mostradas no vídeo era perfeita para o entendimento dessas coisas. Mesmo que de forma simplificada. Segundo, as crianças devem, sim, saber desde cedo a respeitar e querer o bem de TODAS as pessoas, inclusive as LGBTQI+. Assim como devem, desde cedo, começar a ter educação sexual nas escolas. Não para aprender a transar; isso é mito! Mas sim para entenderem o que é abuso, de onde vem e como evitar. Porém, isso é assunto para outro texto. Terceiro, se não é para "doutrinar crianças", então o que o Pastor Silas Malafaia (sempre ele) estava pensando quando também pegou um monte de crianças e fez elas dizerem um monte de merdas preconceituosas na frente das câmeras? Isso também não se faz, pastorzinho.... E com essa onda de ódio vindo de todos os lados, vemos que a luta e a resistência LGBTQI+ estão muito longe de acabar e que a paz e o respeito para essa comunidade ainda é um sonho a ser concretizado. Paz e respeito que serão conquistados com luta! Luta e união de todas pessoas que acreditam que TODOS SÃO IGUAIS!

Fiquem, agora, com a lindeza da campanha do Burger King....

Paz!


Sigmund Phoda


FONTES:

https://ponte.org/jovem-gay-e-assassinado-a-tiros-dentro-de-barbearia-em-sp/

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/01/21/homem-e-preso-em-campinas-apos-matar-e-guardar-coracao-da-vitima-em-casa.ghtml

http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/apos-agressao-dandara-foi-morta-com-tiro-diz-secretario-andre-costa.html

https://catracalivre.com.br/cidadania/mulher-trans-e-queimada-viva-em-recife/

https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/homem-que-arrancou-o-coracao-de-travesti-e-absolvido

https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/travesti-tem-casa-queimada-e-afirma-que-incendio-foi-criminoso

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/11/02/vai-virar-mulher-de-verdade-estupro-corretivo-vitimiza-mulheres-lesbicas.htm

https://www.opovo.com.br/noticias/economia/2021/06/25/campanha-do-burger-king-brasil-com-depoimentos-de-criancas-sobre-lgbts-gera-polemica-nas-redes-sociais.html

domingo, 27 de junho de 2021

"COVA" AMÉRICA


Leandro Málosi Dóro



Fala pra mim que é pra ficar

Senta do meu lado só por estar

Dessa vez sem me tocar

Teu corpo deitado curvado

Na cama dorme de lado

Meu mais novo espetáculo

A calmaria que não se pode beber

Efeitos que comprimidos não vão fazer

Como um belo buraco no meu ser

A luz que toca o momento se transforma

Não há nada para marcar a hora

Tudo só existe no agora

Aquele ser tão simples de pura realidade

Alimentado por crises de ansiedade

Se faz meu único sentido de reciprocidade

Pensei uma ou duas vezes o deixar ali

Porque nunca me sinto bem no aqui

Quero sempre algo a perseguir

O peso do deixar também é o perder

O que juro que parecia melhor pra você

Não me tornar o sentido do sofrer

Mas é sempre tarde demais

Dá pra piorar um pouco mais

Fazer de tudo até não saber como voltar atrás

Onde se viu confusão por calmaria

Mas essa nunca foi minha vida

Os sentimentos sempre foram uma agonia


Fernanda Bonfim 

BERNARDO



Ele passa por minha porta e em direção ao elevador o vejo ir embora. Mais uma noite terminada e uma sensação de saudade recém conquistada.

Deito na cama abro o Tinder e de perfil em perfil vejo um catálogo de novas pessoas a se conhecer. Para direita uma chance e para esquerda uma recusa.

Me perguntam se ele não é o suficiente, se não é o bastante e toda vez sou capaz de me confundir com o que falam. O suficiente pra quê? O bastante pra quem?

Falam como se ele fosse refém de me acompanhar em minhas obrigações sociais, horários livres ou momentos de carência. Como se um devesse se manter submisso às demandas e necessidades do outro.

O mundo é cheio de pessoas para que conheçamos as mais maravilhosas e não aprisionemos a nós uma que pelo destino acabou por nos encontrar.

Sou capaz de amar-lhe tanto que sua liberdade é meu prazer. Desejo que a mesma sorte que teve ao me conhecer também tenha com várias outras pessoas tão maravilhosas, se não mais.

Sou tão feliz de ter a sorte de viver ao teu lado que em nenhum momento consigo parar de desejar que viva novas experiências e no meio dessas sinta a adrenalina de novos desejos e paixões.

Meu amor por ti é admirar teu jeito belo, sincero e puro de ser. Pessoa tão boa que nunca sozinha seria eu capaz de dar te a felicidade e o amor que merece conquistar.

No meu jeito rude de regar amor em semente de desapego as vezes olho pro seu rosto tentando descansar em minha cama e questiono ao universo e o destino que bondade cometi em minha vida para por sequer um segundo ter a alegria de te ter ao meu lado.

O desafio mais difícil a que já me submeti foi reconhecer que no meio desse jogo de liberdade havia a chance de no baralho te perder. De carta em carta meu medo não era vir uma melhor, mas de a mão mudar.

Algumas cartas se abaixam, outras se somam, mas a mão sempre se altera. No meio de toda essa pressa, desespero e deplorável competição percebi que todo jogo se submete ao inesperado já esperado.

E assim passando as cartas em minha mão penso o quão livre é perceber que nada é eterno e nosso amor só é bom enquanto dura. Saber que assim como a vida aquilo em algum momento termina e tudo tem de ter sido feito em máxima exposição.

Permitir a nós mesmos o sofrimento de perder e parar de nos iludir com o amor eterno e romântico é apenas entender que somos todos parte integrante da manutenção social da indústria da paixão.

Para de tentar moldar a ti alguém para estar sempre ao teu lado. Para de te imaginar casado, construindo família e envelhecendo acompanhado da mesma pessoa de hoje. Você não é esta pessoa e ninguém verdadeiramente feliz será.

As discussões, desconfortos e renúncias farão de cada um dos dois alguém mais complexo e distante do que seria a pura, plena e simples felicidade.

Por que razão algum dia nos disseram que o romance deveria se submeter à abrir mão do que poderíamos fazer quando sozinhos para ter um alguém ao nosso lado? Que tipo de lógica nos convencem que não devemos ser felizes sozinhos para termos a felicidade do outro quando acompanhados?

Não sei como me meti nessa confusão e prazer da leveza e do pesar de não se prometer. De alguma forma cheguei aqui e sinto que conquistei o sentimento mais sincero que sou capaz de lhe oferecer.

Durante a noite converso sobre meus medos e inseguranças. Minha mente se torna assustadoramente calma. Se mostra vulnerável e efêmera. Somos todos seres admiráveis sob o certo olhar mas também somos sensíveis.

O mínimo pensar e agir é o máximo mutar. São tantas as boas pessoas por aqui que passei a desejar ser em suas vidas nada além de bem.

E assim eu o amo. E amo tanto que ele é pouca gente pra receber o quanto tenho para dar. Ele é bom. E tão bom que sou pouca gente pra ser o bem que merece receber.

Por isso toda noite sou capaz de deixá-lo ir na esperança de que algum dia o mundo conseguir fazê-lo feliz como o merece ser.


Fernanda Bonfim

quarta-feira, 23 de junho de 2021

O LEITOR-CENSOR: ONDE VIVE E DO QUE SE ALIMENTA



A censura, segundo o dicionário, é “o exame de trabalhos artísticos ou informativos que busca filtrar e proibir o que é inconveniente do ponto de vista ideológico e moral”. Do ponto de vista ideológico e moral do censor, acrescento.

A ideia fundamental da censura é calar quem discorda, geralmente para proteger os próprios interesses. Houve um tempo em que a censura vinha em forma de canetaço, bem descarada e escancarada; hoje, no entanto, ela veste mil máscaras, e surge tão discretamente que você nem percebe que ela está ali. Porque agora não é mais o governo ou o ditador que intimida e silencia. É o censor disfarçado de leitor, que eu carinhosamente apelidei de leitor-censor.

A internet é o seu habitat natural; é onde vive e procria, alimentando-se do mesmo veneno que espalha. 
Protegido atrás da tela, é dali que garimpa quem não pensa como ele e ataca. Também costuma andar em bando, para parecer maior e mais forte do que de fato é.

Entretanto, o leitor-censor geralmente não se considera um censor. Bem pelo contrário. Ele acredita estar exercendo plenamente sua cidadania e seu direito de se expressar com liberdade. Ele crê estar apenas “dizendo o que pensa”.

Contudo, seus comentários são fáceis de identificar, porque são recheados de ranço e deboche. Não raramente, questionam a inteligência e a integridade do autor, o ofendem e o ridicularizam. Intimidam e desqualificam sua opinião. O leitor-censor não conversa e argumenta, o que é obviamente saudável: ele avança. Invade teu espaço e te agride. Solta o verbo e toca o maior terror.

Seu objetivo é calar a boca de quem pensa diferente dele. Como não pode usar do canetaço, uma vez que não tem poder para tanto, se utiliza de palavras para ferir e coagir. Uma tática que funciona, já que muitos preferem não mexer em alguns vespeiros e deliberadamente se autocensuram, com medo da reação tirânica da massa. “Não vou falar sobre isso pra não me estressar”, diz o autor encurralado. E é assim que mais um leitor-censor cumpre sua missão com sucesso.

Eu, enquanto escritora, tenho muito cuidado com a autocensura gerada pelo leitor-censor. Mais de uma vez me peguei apreensiva, pensando se deveria ou não escrever sobre determinado assunto, prevendo de antemão a ofensiva histérica que vinha pela frente. Então me lembro que este é justamente o objetivo do leitor-censor, e escrevo.

Mas não escrevo para convencer, o que me livra da obrigação de rebater e discutir, desperdiçando meu tempo, minha saúde e minha juventude. Isso, afinal, é o que o leitor-censor quer de mim. Que eu me esgote em uma luta vã, batendo boca e me exaurindo internet afora. Ele quer que eu acredite que não vale a pena mexer em alguns vespeiros.

Em tempos como este, de extremos e radicalismos, o leitor-censor desempenha um papel fundamental para a manutenção da selvageria. Sob o falso argumento de exercer seu direito de se expressar livremente e “dizer o que pensa”, ele filtra e proíbe o que é inconveniente do seu ponto de vista ideológico e moral, e te impede, via constrangimento, de se expressar livremente e dizer o que pensa no teu próprio campinho. Ao supostamente “exercer sua cidadania”, o leitor-censor busca calar qualquer voz que não faça eco às suas convicções.

É censura que se chama.

Porém, a verdade é que não existem vespeiros onde não se possa mexer. O método do leitor-censor só funciona se o autor se assustar com seus gritos virtuais – que são somente isso, gritos virtuais. Por isso, sugiro não alimentar o leitor-censor neste zoológico que virou nosso país. Não amplie sua voz e sua importância, não perca seu precioso tempo, sua saúde e sua juventude, não pare a caravana.
Porque é mais fácil você começar a latir do que o cão que ladra aprender a dialogar.


Jana Lauxen

FORTE E FODA



A primeira vez que li Fernanda Young, “Vergonha dos Pés”, lançado em 1996, eu tinha 12 ou 13 anos e caminhava por aquele limbo escuro e frio entre a infância e a adolescência. Entre ser o que esperavam de mim e ser eu. Com 12 ou 13 anos, eu já suspeitava que o papel da mulher, forjado e imposto por uma sociedade no mínimo equivocada, era uma bela de uma bosta. Senta direitinho. Fale baixinho. Seja boazinha. Não responda. Fecha as pernas, menina! Não é assim que se comporta uma mocinha!

Não, eu não queria me comportar como uma mocinha. Não queria sentar direitinho, falar baixinho e ser boazinha. Não queria diminutivos para mim.

Eu queria ser forte e foda, mas a maioria das representações de mulheres que eu conhecia naquela época, pela TV, revistas e jornais, era o oposto disso: elas eram frágeis, sempre à espera de um salvador montado num cavalo branco; eram todas padronizadas, dóceis, comportadas e obedientes, obcecadas em agradar. Belas, recatadas e do lar.

Deus me livre ser assim.

Aí conheci a Fernanda, lá por 97 ou 98. Ela era foda e forte e ainda mais: era desbocada, descabelada, selvagem, questionadora, indomável, respondona, dona de uma ironia e de uma criatividade arrebatadoras. Não era doce, era ácida. Não queria agradar, queria provocar o caos, e provocava. Fernanda Young rasgava e cuspia na cartilha da boa moça, e escrevia como quem contra-ataca. Sim, ela ainda escrevia, exatamente como eu queria escrever.

Com 12 ou 13 anos eu me apaixonei perdidamente por Fernanda Young. Foi ela quem me mostrou que, nesta sociedade machista, hipócrita e violenta, que enquadra e silencia, precisamos ser antagonistas. Precisamos revidar. Precisamos gritar cada vez que nos mandam falar mais baixo. Precisamos enfrentar e fazer tudo o que nos ordenam não fazer. Porque nós somos FODAS e FORTES, todas nós, e a sociedade que se vire para dormir com o barulho que somos capazes de fazer – e fazemos.

Por tudo isso, é claro, Fernanda era um dos alvos preferidos do conservadorismo estúpido e patológico que infesta nosso Brasil. Os reacionários, os retrógrados, os opressores, eles a odiavam, o que é mais um, entre tantos motivos, para amá-la. Chamavam-na de louca, de puta, de tudo, e criticavam sua aparência e sua literatura, numa tentativa vã de derrubá-la. Calá-la. Assustá-la. Nunca conseguiram, os pobres coitados. Fernanda sabia muito bem que a crítica de alguns é elogio. E quanto mais apontavam seus dedinhos sujos e julgadores em sua direção, mais ela falava e escrevia, mais ela resplandecia e se agigantava e mais alto gritava. Mais foda e mais forte ela se tornava.

Fernanda Young era uma força da natureza. Tarja preta contraindicada para caretas. Por onde passava, conflagrava um motim. Ela era anarquia e subversão em seu estado puro; revolucionava apenas por existir.

Eu cresci tendo Fernanda como inspiração e como sou grata por isso! Com ela descobri que, ao contrário do que me ensinaram, eu devo falar alto sim – por isso tenho voz. Aprendi que devo sentar como eu quero, viver como eu quero, fazer o que eu quero, escrever do jeito que eu quero. Aprendi que meu corpo é meu, que a minha literatura é arma, bala e escudo, e que eu não devo ser boazinha com uma sociedade tacanha, autoritária e filha da puta, que enquadra, embala e rotula as mulheres como se elas fossem comida enlatada.

E agora, justamente agora, que tanto precisamos de Fernanda Young e de sua voz, de seus textos, de sua inquietude, de sua rebeldia e insubmissão, ela se vai.

No lugar de seus gritos, o silêncio.

No lugar de sua presença, o vazio.

No lugar de suas palavras, a folha em branco.

Resta-nos o que ela deixou, e foi muito: livros, peças, séries, crônicas, entrevistas, rascunhos, poesia. Ideias.

É assim que Fernanda Young seguirá assombrando esse país careta, abandonado e triste, no qual continuamos, exaustos e cheios de saudade de sua luz.

Jana Lauxen

 LGBTQFOBIA E TRANSFOBIA MATAM! E VOCÊ? O QUE FAZ A RESPEITO?


Estamos no fim do dia 22 de junho. Portanto, há cerca de uma semana para findar o mês referente ao orgulho LGBTQIAP+; um mês dedicado à conscientização e defesa dos direitos das transexuais, travestis, gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais, assexuais, não-binários, crossdressers, drag queens e outros que, por apenas existirem, serem quem são e lutarem por respeito e igualdade de oportunidades e direitos, são humilhados, ridicularizados, marginalizados, excluídos, estuprados, agredidos de forma física, verbal e psicológica e mortos de forma cruel, desumana e torpe. E mesmo acontecendo toda essa gama de acontecimentos atrozes com essa parcela invisibilizada da sociedade brasileira, muitos estão insensibilizados perante aos fatos. E pior: consideram normal e aceitável, incentivam e proliferam essa cultura nefasta e desprovida de humanidade.

Nesses últimos dias, aconteceu dois notórios casos de transfobia envolvendo a gamer e engenheheira de sistemas Michelle Brea Soares, mulher trans, lésbica e demissexual, que foi ridicularizada e chamada por pronomes masculinos durante uma live de criadores de conteúdo "cristão" (uso aspas porque, na minha opinião, eles NÃO são cristãos) e Marcella Pantaleão, também mulher trans, gamer e criadorA de conteúdo digital que foi chamada de "3 pernas" pelo Youtuber gamer Buxexa, em uma live de um popular jogo de tiro. Esses casos horrendos de transfobia repercutiram negativamente contra muitas trans e travestis famosas, como A criadora de conteúdo digital, assexual e travesti Alina Durso, que recebeu inúmeras críticas e, até, ameaças de morte, por ela denunciar esses CRIMES - sim, são CRIMES! - contra essas duas mulheres.

Vamos ao primeiro caso: Michelle estava participando de uma live a convite de um grupo "cristão" - reforço as aspas porque eles NÃO são cristãos; são um bando de escrotos sem humanidade - para falar de Identidade de Gênero. A transmissão dessa live foi comandada por um autodenominado "cristão conservador" - que de cristão não tem nada! - Samuel Zalton e nessa live estavam presentes a deputada estadual pelo estado de Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo (PSL), o vereador mineiro Nikolas Ferreira (PRTB), a influencer evangélica Ingred Silveira, entre outros párias. Na transmissão em questão, ela foi colocada contra a parede, interrogada sobre questões científicas e confrontada com argumentos pelos seis integrantes da live. Na grande maioria da vezes, Michelle foi tratada como se fosse um homem, sendo referenciada por pronomes masculinos pelos seis acéfalos que estavam presentes - mesmo elA solicitando aos participantes (ou criminosos?) a respeitarem sua identidade e seu gênero; o que deixou A Michelle bastante constrangida.

Olhem o que o "cristão" Samuel Zalton falou para A Michelle, em dado momento da criminosa transmissão, negando-se a usar o pronome feminino para referir-se À Michelle (o que é ERRADO!):

- "Existe algo que nós cristãos acreditamos que é a liberdade de expressão. Nossa religião está em uma premissa, em princípios. Eu acredito que você respeita todas as religiões. Na nossa religião não existe essa distinção de sexo e gênero. Então, com relação aos meus princípios, da maneira que levo minha vida, eu devo te tratar sem negar meus princípios."

Noutro momento, o vereador Nikolas Ferreira solta a seguinte "pérola": "Vou botar o JB aqui só de boa. Vou botar o Bolsonaro", disse ele. Vale lembrar que Bolsonaro, além de ser defensor da tortura e da Ditadura Militar, de dizer que não estupraria uma mulher por ela ser "feia" e de não ter nenhum - eu disse NENHUM! - apreço pelas minorias, ele é extremamente LGBTQfóbico e fez medidas em seu governo para dificultar ainda mais a vida dessas pessoas, como tirar as pessoas LGBTQ das diretrizes dos Direitos Humanos e criticar o STF por ter decidido criminalizar a homofobia. Mas isso fica para outro texto. E nunca, NUNCA é demais dizer: FORA BOLSONARO!

Voltando ao assunto.... Michelle, por sua vez, mencionou que este é o seu nome legal e que, por isso, seu nome e gênero deveriam ser respeitados. ElA disse: "O artigo quinto da Constituição Federal prevê a liberdade de pensamento e de expressão. Da mesma forma que ela prevê essa tua liberdade religiosa e direitos e deveres iguais entre todos os brasileiros. Só que o limite da liberdade de expressão é a lei. Quando você incorre criminalmente em algumas coisas por causa da sua fé, isso é um problema".

Pouco após ela entrar na live, ela reforçou sua fala, dizendo: "Meu nome legal é Michelle". Michelle lamentou, também, o fato de que sua identidade de gênero não foi levada em conta no debate. ElA disse, ainda: "Quando entrei... a primeira coisa que vejo é você e a Ingred me tratando no masculino. A gente pode conversar no nível do respeito, ou na base da porrada. Eu gosto de conversar no nível do respeito, mas se você não consegue respeitar o meu gênero, a gente já começa difícil".

Mesmo assim, apesar de toda a contextualização e de todas as explicações, a gamer foi chamada preconceituosamente de "O Michelle". Mas ela não ficou calada e rebateu: "Minha certidão de nascimento diz isso, minha identidade diz isso, então eu sou 'A Michelle'". Outra situação que chamou a atenção foram as risadinhas e o tom de deboche usados durante todo o tempo da transmissão.

Veja, na íntegra - são mais de 5 horas - a transmissão da live:



Vamos ao segundo caso. O Youtuber gamer, streamer e, desde o domingo passado, dia 20, ex-jogador do Fluxo - time de Free Fire - Pedro "Buxexa", proprietário de um canal como quase 2 milhões de seguidores, foi convidado para a live do Welington "Rachaxp" no sábado, dia 19, na plataforma de streaming BOOYAH!, de propriedade da Garena, criadora do Free Fire. Durante a transmissão, Bruno "Nobru" - streamer e CEO da Fluxo - conversava com Marcella Pantaleão, no Instagram; chegando a comentar com um emoji de coração em uma foto dela. Foi esse o motivo de toda a chacota e zombaria voltada para Marcella e Nobru. Mas, claro, a maior vítima foi a Marcella. Buxexa e Racha zombaram dela o tempo todo, a chamaram de "ruiva de três pernas" e disseram que era era um homem. Entre outras coisas. Tudo isso ao som de altas gargalhadas e deboche.

Isso acabou custando a demissão de Buxexa do time de Free Fire Fluxo e a perda da parceria da Garena com ele e Racha - o que achei pouco - no domingo passado, dia 20 de junho, como foi anteriormente citado. Em vez dele consertar o erro (crime) que ele cometeu, ele fez alguns vídeos se justificando pelo que aconteceu.

Casos como esses não são os primeiros e nem serão os últimos, infelizmente. E, a partir desses casos, dessas denúncias de crime, percebemos como boa parte da população age. Apesar da manifestação popular em apoio às meninas vítimas desses crimes, muitas pessoas agem como se mulheres trans e travestis fossem uma praga, um vírus pior do que o da COVID-19. E fazem de tudo para invisibilizá-las, humilhá-las, invalidar suas identidades e corpos, violentá-las e ameaçá-las de morte - isso quando não as matam a pauladas, tiros ou por qualquer outro método torpe. Isso é algo que deve ser combatido até as últimas consequências. E esse combate deve começar desde cedo; na educação de base. Nossas crianças devem aprender que, assim como existem pessoas brancas, negras, amarelas e indígenas, existem pessoas com sexualidades diferentes, corpos diferentes e vivências e visões de mundo diferentes. E o mais importante de tudo: aprender a, se não conseguir amar essas pessoas, respeitar e validar suas identidades e corpos. A tratarem essas pessoas como seres humanos dignos de respeito, de oportunidades, de convívio social e, também, de amor e carinho por parte de todos.

Agora passam das 5 e meia da manhã do dia 23 de junho de 2021. Faltam 7 dias para encerrar o Mês do Orgulho LGBTQ. Passei a madrugada vendo vídeos, lendo matérias e escrevendo esse texto para vocês. Regado à Coca-Cola e Marlboro Vermelho. E entre um gole e outro, entre uma tragada e outra, pensei muito sobre esse assunto tão doloroso e espinhoso. E vejo o quanto estamos, ainda, perto da Era da Barbárie; onde só o mais violento, o mais forte, o mais brutal vence. E enquanto a paz vai sendo depenada pena a pena, o sangue inocente de mulheres trans, travestis e da população LGBTQ verte em direção ao seio da Mãe Terra. Creio que por muito tempo, ainda veremos lésbicas e assexuais sendo estuprados; gays, trans e travestis serem ameaçados, espancados, torturados e mortos em ruas, terrenos baldios e lugares ermos de toda nação. Isso se a cabeça dos poderes políticos não mudar. Se a cabeça das autoridades policiais e militares não mudar. Se a cabeça das lideranças e comunidades religiosas - especialmente as cristãs - não mudar. Se a cabeça da sociedade civil não mudar. Mas os poderes políticos não pensam em nós. As autoridades policiais e militares não pensam em nós. As lideranças e comunidades religiosas não pensam em nós. A sociedade civil não pensa em nós. E, para pôr mais gasolina nessa fogueira insana de ódio e preconceito, temos, no posto mais alto do país, um ditador, um carrasco, um misantropo, um torturador genocida que, em quase 4 anos, mostrou a verdadeira face brasileira: uma face horrenda, putrefata, bestial. Trabalhada no ódio, na fobia, na misoginia - e uma pitada de misandria, também -, no preconceito, na violência, no abandono, no descaso.

Acendo um cigarro e tento me confortar, pensando que tempos melhores haverão de vir.... Dou uma tragada e, com um suspiro doído, vejo que o caminho será cada vez mais duro. Pois, mesmo com toda a tecnologia e toda a carga de informação instantânea que enviamos e recebemos toda hora, todo dia, recebida em nossos dispositivos eletrônicos, vivemos um retorno à uma era de obscurantismo sociocultural. Uma Idade das Trevas Digitais. Onde as mulheres trans e travestis são as bruxas da vez. Prontas para serem queimadas. E quem apoia elas, também está na mira da Nova Santa Inquisição. Mas não penses tu que é um processo novo, repentino. Vem se gestando na mente coletiva da sociedade dominante, burguesa e elitista brasileira há décadas. Agora, com a entrada do Bolsonaro, que essa onda de ódio e preconceito tomou mais vulto, ganhou cara e corpo. Todo cuidado é pouco. Nossas vidas - especialmente a vida de pobres, negros, índios, homens e mulheres trans, travestis e população LGBTQ - estão valendo menos que um pedaço de bosta. E eu digo; se o COVID-19 não nos matar, se a fome não nos matar, se o governo e as autoridades não nos matarem.... A intolerância vai nos matar.

Passam de 6 e meia da manha. O dia está nascendo. Mais um dia de luta, mais um dia de fé, mais um dia de coragem. E mais um dia para lembrarmos que qualquer vida, por mais ínfima que seja, vale a pena. Que qualquer forma de amor vale a pena. Que a luta pela Liberdade, pelo Amor, pela Paz e pela Vida é árdua, pesada, extenuante.... Mas que vale a pena ser lutada. Ainda mais em um pais onde, em 2020, a percentagem de pessoas trans mortas chegou a atingir 41%.

Parem de matar pessoas trans e LGBTQ! Vivam e deixem viver!

Paz!

Sigmund Phoda

BIBLIOGRAFIA

https://www.terra.com.br/gameon/streamer-buxexa-e-desligado-do-fluxo-por-comentario-transfobico,3755761ed36d5f0e8b0d6044fda233107gf395y8.html Acessado em 22 de junho de 2021 às 22:53

https://hugogloss.uol.com.br/brasil/engenheira-sofre-transfobia-em-live-com-influencers-e-politicos-cristaos-caso-gera-revolta-e-pedidos-de-respeito-a-vitima-assista-e-entenda/ Acessado em 22 de junho de 2021 às 22:51

terça-feira, 22 de junho de 2021

BANDIDO BOM É BANDIDO...



...Recolhido por uma polícia preparada, julgado por uma justiça que faça jus ao seu nome, e encarcerado em um presídio capaz de reabilitá-lo e reintegrá-lo ao convívio social.

“Se você está com pena, adota”. Quase posso ouvi-lo dizer, leitor. Isto é, quase posso ouvi-lo repetir, pois este é um discurso mais velho do que andar pra frente, e tão profundo quanto uma poça d’água. Mas, respondendo a pergunta, eu não vou adotar por que o crime certamente fará isso primeiro. Aliás, é o que o crime faz: adota estes jovens que são, desde o momento em que nascem até o momento em que são linchados pelos “cidadãos de bem”, tratados pela sociedade – ou deveria dizer por nós? – como marginais.

A raiz deste discurso nasce da ideia deturpada e superficial de que não importa como chegamos aqui, mas que estamos aqui e fim de papo. Mas, sim, importa muito como chegamos até aqui. Importa muito saber por que um jovem de 15 anos sai para assaltar uma loja, ao invés de estar estudando e pegando um cinema com a namorada. Ninguém entra para o crime por que acha bonito. Geralmente, entra-se por que faltam opções.

Ok! Já escuto o leitor repetindo:

– Não falta opção! Tento contratar um pedreiro para construir uma piscina e não acho; tento arrumar uma empregada doméstica para limpar minha casa de dois andares e não consigo; tento encontrar um peão para cuidar dos meus 300 hectares e não tem ninguém querendo trabalhar!

Por que razão nós, classe média e alta, gostamos de acreditar que o sujeito que mora na vila, na favela, no casebre, precisa se contentar em trabalhar para nós, sempre? O menino carente não pode querer um celular novo, como seu filho quer. Ele deve se contentar em falar no orelhão. O jovem pobre não pode querer um carro ou um tênis de marca, como você quer. Pra que carro e tênis, se têm ônibus e chinelo de dedo? O pobre parece não ter direito de querer status e respeito, e deve todos os dias se ajoelhar e agradecer pelas migalhas que lhes jogamos, vez ou outra.

Só que eu pergunto: por que você, seus filhos, amigos e familiares podem querer conforto, e até alguns luxos, e o filho, os amigos e os familiares da sua empregada, que limpa sua casa de dois andares, não podem? O que diferencia você e os seus, deles?

Eu digo: as oportunidades. Você, eu, nós, estudamos em uma boa escola, crescemos em um lar relativamente estruturado, nunca passamos fome, nunca sofremos maus-tratos, preconceito, abandono, violência. Mas e para sua empregada, seu pedreiro, ou seu peão? As oportunidades foram iguais?

Resposta: não. Não mesmo. E se nós, com diploma na parede, piscina, casa de dois andares e granja de 300 hectares achamos razoável espancar, desnudar, humilhar e amarrar um adolescente de 15 anos em um poste, imagina o que este mesmo adolescente não acha.

Precisamos parar com este discurso de ‘nós’ e ‘eles’ – sendo nós os cidadãos de bem, trabalhadores e pagadores de impostos, e ‘eles’ os marginais, vagabundos e desocupados, que deliberadamente optaram por assaltar bodegas ao invés de estudar e pegar um cinema com a namorada.

Por que ‘eles’, assim como ‘nós’, não querem só comida. Queremos muito, muito mais.

Jana Lauxen

PEQUENA CRÔNICA SOBRE FUTEBOL


Interessante o meu colorado: diminui diante dos pequenos e se agiganta diante dos gigantes.

Uns dez anos atrás, quando eu morava em Passo Fundo, o dono do mercadinho perto do meu prédio, gremista, vivia me zoando porque o Inter perdia, e não raramente de goleada, pra times minúsculos e modestos, cujo orçamento anual não pagava o salário de um jogador de base do colorado.

Porém, eu lembro que respondia pro dono do mercadinho que o Inter era o clube do povo, que abraça os excluídos, os esquecidos e os marginalizados, e levou esta filosofia para o campo. Times sofridos saíram da zona de rebaixamento ou conseguiram a primeira vitória no campeonato graças ao Inter. Clubes modestos, que não marcavam gol há meses, puderam comemorar pelo menos uma noite, tudo graças ao Inter.

Não sei, mas pensar deste jeito sempre conforta meu coração, haha.

O fato é que, como bem sabemos, o Inter é assim até hoje – e graças a São Fernandão, foi assim ontem também, quando se agigantou diante do gigante, no Gigante.

Ganhamos, duas vezes na mesma noite, do melhor time brasileiro da atualidade.

É por causa de momentos como este que meus planos de largar de mão o futebol sempre fracassam vergonhosamente.

Dá-lhe Inter.


Jana Lauxen

A CONSTRUÇÃO DA AUTOESTIMA


É interessante (mentira, é uma bosta!) como a autoestima de homens e mulheres é construída de forma completamente diferente – e proporcionalmente oposta.

Enquanto os homens costumam ser, desde muito pequenos, incentivados a falar, a fazer, a se impor, a dar sua opinião, a experimentar e a sentir-se forte e poderoso e imbatível, as mulheres são ensinadas a se calar, a temer, a se encolher, a se conter, a se envergonhar, a se controlar, a perceber-se frágil e insegura.

Começa lá na infância, se desenvolve e se intensifica na adolescência e segue firme pela vida adulta.

Aos homens, dizem: vá, você pode, você consegue.

Às mulheres, advertem: fique, você é incapaz, você é insuficiente.

O resultado?

Os homens fazem o mínimo e se consideram deuses do Olimpo.

Já as mulheres fazem o máximo e estão sempre se sentindo culpadas e em falta com todo mundo.

Seria justo e inteligente, enquanto sociedade, retirarmos um pouco da superestimada autoestima masculina e dividir com a subestimada autoestima feminina.

Jana Lauxen
FESTAS DO PCdoB EM PASSO FUNDO


Leandro Malósi Dóro
OLHOS NO ESPELHO


Sento-me na cama e sinto frio
Olho dentro dos olhos que persigo no espelho
Vejo as dores na alma púrpura do sujeito que sorri disfarçando o incomodo de ser descoberto
Mudo de lugar buscando fugir de mim mesmo quando, de repente, estou de volta
Arrependo-me dos anos que passaram e não vi
O tempo cai sobre meus ombros
Esqueço o frio
Por alguns instantes fico calado
O silêncio faz barulho às vezes
Então vejo graça envolvendo os olhos no espelho
E sinto que nem tudo que é bom e prazeroso vale realmente à pena
Minto um pouco para mim mesmo em busca de satisfação
Caio em mais um dilema
Como sou verdade se minto para mim só para ser feliz por um instante?
Só me resta fechar os olhos e relaxar
Não dou mais ouvidos a ninguém
Silencio
Depois me despeço do sujeito no espelho
Agora, mais confuso do que antes e mais certo sobre quem realmente é.

Crust
HISTÓRIA PASSOFUNDENSE DE AMOR NO PÓS-II GUERRA



Leandro Malósi Dóro

CANTANDO O AMOR LIVRE - CANÇÕES SOBRE A NÃO MONOGAMIA



O amor romântico, o amor único - aquele em que você só encontra um único amor para toda a sua vida - é retratado na música desde tempos imemoriais na história da arte e da cultura universal. Quando se fala em canções de amor, logo vem à mente as juras de amor eterno e de fidelidade. Os exemplos são infinitos e permeiam os mais variados estilos musicais; desde o rock'n'roll e o metal até o samba, o pagode e o sertanejo, passando pelas músicas tradicionalistas e regionais, chegando ao pop e ao rap.

Mas não só de juras de infinito amor e fidelidade incondicional vive a história da música. Se formos fazer uma boa pesquisa, encontraremos artistas que falam de outras formas de relacionamento; outras histórias de amor(es). Por enquanto - digo por enquanto, porque a História e os relacionamentos estão cada vez mais dinâmicos - existem poucas canções - tanto no cenário nacional como internacional - que abordem o tema da não monogamia, do poliamor, do amor livre. E para facilitar a vida de vocês, amados leitores, fiz uma boa pesquisa na web e montei uma playlist com nada menos do que 31 músicas; tanto brasileiras como estrangeiras, sobre o amor livre e a não monogamia. E espero que essa playlist aumente....

Nessa playlist, você encontra clássicos como "A Maçã", do saudoso e lendário roqueiro Raul Seixas e "Já Sei Namorar", do grupo Tribalistas até músicas de artistas desconhecidos nacionalmente, como Kaos Klitoriano - que tem uma pegada mais punk rock - e Ícaro Água; passando por Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Kid Abelha, entre outros. E de artista internacionais, a playlist com nomes famosos como Britney Spears, com a música "3", Jason Mraz, Cyndi Lauper e Kesha até nomes menos conhecidos - para mim, claro.... Hahahahaha.... - como dodie, Conan Gray e Lizzo. Todos exaltam a consolidação de um amor livre, plural e sem preconceitos, em contraponto ao amor único e monogâmico.

Curtam a playlist, usem os comentários para falar sobre o que acharam e sentiram com as músicas.... Esse espaço é de VOCÊS!

Paz!

Sigmund Phoda

segunda-feira, 21 de junho de 2021

MORTE SÚBITA



Momentânea e brutalmente
Ocorrida em meio às
Ruas pútridas de alguma cidade
Transtornada, violenta
E soturna.

Soturna alma errante em
Última passagem pelas
Bucólicas vias sombrias;
Indo ao desconhecido,
Tomba diante da
Arma que lacera seu coração.

Sigmund Phoda

A REVOLTA DOS MOTOQUEIROS



Uma história sempre atual

Em 1979, ocorreu a revolta dos motoqueiros em Passo Fundo (RS).  Cerca de 15 mil pessoas se rebelaram por membros da brigada militar terem matado, pelas costas, o motoqueiro Clodoaldo Teixeira de 17 anos. O jovem  fugiu de moto de uma blitz e foi fuzilado em frente a casa dos pais.

A revolta durou uma semana e o exército fechou as fronteiras da cidade para a rebelião não se espalhar; afinal, eram os últimos anos da ditadura militar e, naquele ato, também havia clamor pela democracia. 

A organização da revolta partiu do Motoclube de Passo Fundo. Ano seguinte, após o fim da revolta, membros do exército se infiltraram e tomaram a presidência do motoclube, transformando o que estava se tornando em uma associação a favor da democracia numa entidade defensora das forças armadas. 

No ato dos motociclistas a favor de Jair Bolsonaro, percebo esses elementos de infiltração e organização que o exército domina há dezenas de anos. A revolta dos motoqueiros nunca esteve tão atual.


Leandro Malósi Dóro

 PASSOFUNDO.COM - PRIMEIRO SITE DE PASSO FUNDO


Leandro Malósi Dóro



SURGIMENTO DA CULTURA DO SKATE EM PASSO FUNDO



 Leandro Malósi Dóro

TEORIA DAS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS - TODOS NÓS SOMOS INTELIGENTES!



Muitas vezes, em determinados momentos da vida, sentamos e, parando para pensar, chegamos a concluir que não somos inteligentes. Que possuímos algum déficit de inteligência. Em suma, que somos pessoas burras! E isso é totalmente irrealista. Não existem pessoas burras. O que existem são pessoas com inteligências mais específicas, mais voltadas à uma determinada área do conhecimento humano. Exemplificando: existem pessoas com uma inteligência mais voltada ao cálculo matemático e outras com uma inteligência mais embasada na oratória e na construção da linguagem e ideias abstratas, subjetivas. Somos mais de sete bilhões de pessoas nesse globo azul - eu disse GLOBO, terraplanistas! - e cada uma dessas pessoas; homens, mulheres e crianças, tem habilidades e saberes únicos, dentro de uma determinada área de conhecimento.

Na década de 1980, o psicólogo cognitivo e educacional e professor na universidade de Harvard, em Cambridge, nos EUA, Howard Gardner (foto acima) desenvolveu a teoria das Múltiplas Inteligências. Howard Gardner liderou uma equipe de pesquisa que buscava analisar e descrever melhor o conceito de inteligência. Segundo Gardner, o conceito de inteligência popularmente abordado em testes de de QI, baseados em psicometria, era insuficiente para discorrer sobre a ampla variedade de habilidades cognitivas do ser humano. Gardner recebeu influências do estudo do pesquisador norte-americano Robert Sterberg, que estudou as variações do conceito de inteligência introduzidas em diversas culturas. Sendo assim, Gardner buscou mais informações sobre a inteligência humana. Em suas pesquisas iniciais, ele levou em consideração a inteligência dos gênios; após isso, a das pessoas com lesões ou disfunções cerebrais. Dessa forma, ele foi formulando hipóteses sobre habilidades individuais e qual região do cérebro reagia à um determinado tipo de estímulo. De acordo com outros estudos feitos por Howard Gardner, ele chegou à conclusão de que a inteligência humana estaria divida nos 9 seguintes tipos principais:

1. INTELIGÊNCIA LÓGICO-MATEMÁTICA: Uma das inteligências mais conhecidas, ela está diretamente relacionada aos números. Trata-se da capacidade de confrontar e avaliar objetos e abstrações, discernindo suas relações e princípios subjacentes. Pessoas com essa habilidade cognitiva conseguem desenvolver raciocínios lógicos e solucionar problemas matemáticos mais fácil e rapidamente. É uma habilidade encontrada em cientistas. Era predominante em seres como Albert Einstein, Issac Newton, Galileu Galilei, Antoine Lavoisier, Louis Pasteur, Niels Bohr, Marie-Curie e Nikola Tesla; entre outros.

2. INTELIGÊNCIA ESPACIAL: Ligada à capacidade de processar informações tridimensionais e distinguir formas, cores, espaços, linhas e figuras. Expressa-se pela habilidade de compreender o mundo visual com precisão, permitindo transformar, modificar percepções e recriar experiências visuais até mesmo sem estímulos físicos. As pessoas que têm essa competência costumam associar imagens a conteúdos e situações para conseguirem fixar o contexto, já que são boas observadoras. Esse tipo de habilidade ou inteligência é encontrada em arquitetos, artistas, escultores, cartógrafos, geógrafos, navegadores e jogadores de xadrez. Alguns exemplos: Alexander von Humboldt, Michelangelo, Frank Lloyd Wright, Garry Kasparov, Louise Nevelson, Helen Frankenthaler, Oscar Niemeyer, Marco Polo e Ana Paula Wickert (exemplo passofundense; afinal, temos de valorizar o que é nosso, né?).

3. INTELIGÊNCIA LINGUÍSTICA ou VERBAL: É a capacidade de utilizar a linguagem para transmitir suas ideias, opiniões e sentimentos; tanto na forma oral como escrita. É caracterizada por um gosto peculiar pelos idiomas e pelos vocábulos, tendo um desejo por explorá-los. Desde a primeira infância, o ser humano é orientado a se comunicar de acordo com sua cultura, ancestralidade e contexto social no qual está inserido. Por isso, a inteligência verbal age muitas vezes como questão de sobrevivência para lidar com situações difíceis e convencer as demais pessoas a respeito de alguma coisa. Pessoas com esse tipo de inteligência conseguem rapidamente aprender línguas estrangeiras e se expressar bem através da fala e da escrita. É uma habilidade encontrada em jornalistas, poetas, escritores, linguistas, cronistas, ensaístas, aforistas e vendedores. Alguns exemplos: T. S. Eliot, Bukowski, Jack London, Jack Kerouac, Mario Quintana, Noam Chomsky, J. R. R. Tolkien, W. H. Auden, Fernando Pessoa, Tarso de Castro, Machado de Assis, Haruki Murakami, Julio Verne, Martha Medeiros e esse que vos escreve (quanta modéstia, né, meus amores?! Hahahahahaha!).

4. INTELIGÊNCIA FÍSICO-CINESTÉSICA ou CORPORAL: É o potencial para usar o corpo com o fim de resolver problemas ou fabricar produtos. Habilidade cognitiva de quem tem boa coordenação corporal, reflexos apurados e movimentos precisos. Essa inteligência traduz-se em ter uma maior capacidade de controlar e executar movimentos corporais de forma aprimorada. É encontrada em atores, mímicos, dançarinos, bailarinos, coreógrafos, atletas e jogadores de futebol; tais como Garrincha, Roberto Dinamite, Isadora Duncan, Usain Bolt, Marcel Marceau, Martha Graham, Deborah Colker, Eusébio, Cristiano Ronaldo, Messi, Pelé, Étienne Decroix, Sébastien Loeb e Ronaldo.

5. INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL: Essa habilidade é caracterizada pelo entendimento dos desejos, motivações e intenções de outros seres humanos. É um reflexo direto na relação social do indivíduo com a sociedade. É, também, a capacidade de desenvolver empatia pelo outro, ou seja, de tentar se colocar no lugar de outro ser humano e perceber e identificar microexpressões verdadeiras de emoção. Pessoas com esse tipo de inteligência têm a tendência a trabalhar em áreas como psicologia, educação, direito, vendas, política, marketing e comunicação; pois sabem como ler nas entrelinhas o que as pessoas pensam e como se sentem na sua vida cotidiana. Pessoas com essa habilidade tem a capacidade de liderar e ensinar, além de gostar de participar de projetos que envolvam várias pessoas. É encontrada de forma mais desenvolvida em pessoas, por exemplo, como políticos, líderes religiosos e professores, tais como Mahatma Gandhi, Papa Francisco, Leonel Brizola, Paulo Freire, Júlio Lancelotti e John F. Kennedy.

6. INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL: Caracteriza-se pela capacidade de se autoconhecer. É a inteligência mais rara sob domínio do ser humano, pois está diretamente ligada à construção de uma compreensão, de um entendimento de si mesmo; o que liga a uma neutralização dos vícios, entendimento de crenças, de limites, preocupações, estilo de vida profissional, pessoal e social, autocontrole e domínio dos causadores de estresse, entre outros diversos comandos de vida que permitem que o indivíduo identifique hábitos e rotinas inconscientes e as transforme em atitudes conscientes. Qualquer profissional que se preze conta com a inteligência intrapessoal em abundância, pois sabe se autoanalisar e buscar os melhores caminhos para progredir, de fato. As crianças e os adolescentes que têm essa habilidade de saberem seus limites costumam apresentar comportamentos melhores em sala de aula, além de um nível elevado de autocontrole para dominar emoções prejudiciais. Desenvolver uma inteligência múltipla desse tipo faz com que o jovem domine as demais competências com facilidade, pois a objetividade se torna uma filosofia de vida, praticamente. Esse indivíduo apresenta característica introspectiva e costuma ser solitário e mais tímido. Ele alcança melhor desempenho quando consegue ficar à vontade. Esse tipo de inteligência múltipla foi predominante em pessoas como Ernest Hemingway e Friedrich Nietzsche.

7. INTELIGÊNCIA MUSICAL: Pode ser identificada pela capacidade de um indivíduo de compor e executar padrões musicais em termos de ritmo e timbre mas, também, pelo capacidade de apreciá-los e discerni-los. Além de cantar e tocar instrumentos musicais, aprender ritmos e canções. A música está relacionada, também com as emoções; o que auxilia na sensibilidade. Embora a produção de sons com o uso da voz ou de instrumentos musicais possa ser treinada e aprimorada com o tempo, os nativos dessa inteligência sabem tocar no fundo da alma de seus espectadores. Pode estar associada a outras inteligências, como a linguística, espacial ou corporal-cinestésica. Essa é a competência que os músicos, compositores e produtores e críticos musicais dispõem de sobra e fazem questão de exercitar todos os dias para refinar os sentidos auditivos. Exemplos: Ludwig van Beethoven, Leonard Bernstein, Midori, John Coltrane, Miles Davis, Mozart, Liszt, Maria Callas, Luís Miguel, Michael Jackson, Jimi Hendrix, Raul Seixas, Mercedes Sosa e James Paul McCartney.

8. INTELIGÊNCIA NATURAL: É traduzida pela sensibilidade de compreender e organizar os objetos, fenômenos e padrões da Natureza, tais como identificar e catalogar plantas, animais, minerais e toda sorte de fauna, flora, meio ambiente e seus componentes. Os assuntos relacionados ao mundo natural trazem grande empolgação e envolvimento aos nativos dessa inteligência múltipla. Ela é característica de biólogos, mateiros e geólogos, por exemplo. Alguns nomes: Charles Darwin, Rachel Carson, John James Audubon e Thomas Henry Huxley.

9. INTELIGÊNCIA EXISTENCIAL: É a menos conhecida das inteligências múltiplas, pois carece de maiores informações ou evidências; fato esse que a coloca no campo do "possível". Ela está ligada à reflexão dos temas relacionados à nossa vida. Abrange a capacidade de refletir e ponderar sobre questões fundamentais da existência humana. Quem tem a inteligência existencial gosta de abordar assuntos como a formação do mundo, o sentido da vida e questionar a existência humana. Ela está ligada aos hábitos familiares e suas crenças. Seria característica de líderes espirituais e de pensadores filosóficos como por exemplo Jean-Paul Sartre, Søren A. Kierkegaard, Alvin Ailey, Margaret Mead, e Dalai Lama.




Vimos, acima, a descrição de cada uma das 9 inteligências múltiplas estudadas por Gardner e sua equipe de pesquisadores. Todos os seres humanos tem, pelo menos, uma dessas inteligências bem desenvolvida. Alguns usam mais de uma inteligência; exemplo dos vendedores, que usam a inteligência interpessoal e a verbal, dos músicos, que usam a inteligência musical, linguística e corporal.... E por aí vai.

Ninguém - eu disse NINGUÉM! - é 100% burro! Por mais que alguns refutem essa afirmação, não existem motivos para concluir que existam pessoas sem nenhum grau de inteligência. Dependendo do meio sociocultural que essas pessoas vivem, elas vão desenvolver um ou mais tipos de inteligência. Como eu disse, cada uma das 7 bilhões de pessoas desse globo azul - repito: GLOBO, seus terraplanistas! - tem habilidades únicas e especiais. E devemos valorizar essas habilidades. Portanto, não existem pessoas burras; que nada sabem. Mas existem, sim, pessoas IGNORANTES; que tudo IGNORAM!

E as inteligências podem e devem ser ativadas e trabalhadas no decorrer da vida. Exige esforço? Sim. Exige trabalho? Sim. Assim como tudo na vida! Vão ter inteligências em que iremos ter um desempenho melhor e outras em que teremos um desempenho pior. Mas não devemos nos frustrar por uma pessoa, por exemplo, ter uma inteligência lógico-matemática altíssima e nós não termos. Podemos ter uma inteligência linguística ou interpessoal tão ou mais alta que a com inteligência lógico-matemática e essa pessoa estar chateada, também; por não possuir a inteligência que você tem.

NÃO vivemos numa eterna guerra de saberes. NÃO estamos numa competição para ver quem é o mais inteligente, o mais fodão. Todos nós temos habilidades únicas, especiais e complementares. E podemos - aliás, não só podemos como devemos! - aprender com as inteligências uns dos outros. Compartilhar conhecimentos. Culturas. Se pararmos de competir pelo título de "CDF Fodão do Ano", ou do século, sei lá; tenho certeza, seremos seres humanos ainda mais inteligentes e melhores.

Paz!


Sigmund Phoda



BIBLIOGRAFIA


https://pt.wikipedia.org/wiki/Inteligências_múltiplas Acessado em 21 de junho de 2021, às 06:07

https://blog.lyceum.com.br/tipos-de-aprendizagem/ Acessado em 21 de junho de 2021, às 06:07


CIGARRO AMIGO Fim de noite Fim de mais uma Série de venturas e Desventuras Hora de relaxar Reclino-me no meu Divã E no afã  de aliviar a Ten...