NÃO MONOGAMIA - UMA BREVE EXPLICAÇÃO
Hoje vamos falar de não monogamia. Não monogamia é um termo guarda-chuva para denominar um série de relacionamentos e estilos de vida que visam romper com a monogamia e seu caráter segregador e opressivo; especialmente contra as mulheres. Mas, para entendermos a não monogamia, temos de analisar o que é monogamia; para assim, entendermos porque surgiu a não monogamia e, principalmente, porque uma NÃO invalida a outra.
A monogamia (do grego: monos: um, único, sozinho; gamos: casamento) é um estilo de vida e de relacionamento que visa a união de pessoa com - e somente com - uma única pessoa - geralmente do sexo oposto; porém, não é, atualmente, uma exclusividade dos casais heterossexuais e heteroafetivos. A monogamia é pautada na devoção e dedicação exclusiva entre unicamente duas pessoas. O desejo por ter outros relacionamentos, sejam eles sexuais ou afetivos, é sublimado e substituído pelo desejo de amar e permanecer única e exclusivamente com apenas uma pessoa. Vejamos bem. Se duas pessoas se amam e gostam de estar sempre juntas e tem desejo sexual e afeto somente uma pela outra, apenas, e se sentem felizes assim, a monogamia é válida. Porém, se essas mesmas duas pessoas, que se amam e gostam da companhia uma outra, não se sentem satisfeitas em terem relações sexuais e afetivas somente entre elas; ou seja, desejam se relacionar entre si e outras pessoas - seja no âmbito sexual e/ou afetivo - talvez a não monogamia seja o caminho mais adequado à elas. E a monogamia não seja a opção ideal de relacionamento e de vida para elas.
A monogamia, em mais de 10.000 ou 20.000 anos - dentro dos mais de 200.000 anos de vida da humanidade moderna - foi colocada como uma imposição, uma regra a ser seguida a qualquer custo. Para fins única e exclusivamente de controle reprodutivo, de eliminação do caráter competitivo, de manutenção da propriedade e dos bens privados. É uma convenção, um contrato social. Segundo matéria da Super Interessante, publicada em seu site no dia 12 de novembro de 2015 (
https://super.abril.com.br/comportamento/monogamia-nao-faz-sentido/), a monogamia seria uma troca de favores: a mulher se envolveria exclusivamente com um único homem em troca de comida, abrigo e proteção e o homem teria certeza de que os filhos gerados por essa mulher seriam dele; dividindo seus bens e propriedades com ela e essa prole, por pertencerem à sua base genética. O que, no Brasil, não parece funcionar muito; já que são inúmeros os pais "monogâmicos" que abandonam sua esposa e filhos por justamente duvidarem da paternidade deles. Ainda nessa matéria, o Homo Sapiens é um dos poucos seres que tem mais relações sexuais que o biologicamente necessário para reproduzir-se. Segundo ela, o normal, entre mamíferos, é que nasça 1 descendente a cada 12 relações sexuais. Enquanto que, nos humanos, a proporção é de 1 a cada 1000! Isso só mostra que, para a humanidade, o sexo não tem fins exclusivamente reprodutivos; ele, também, é um instrumento de criação de laços sociais e como forma de obter prazer.
Vê-se muito na nossa cultura o que chama-se de monogamia compulsória; o que nada mais é que a imposição do modelo de relacionamento monogâmico na mente e na cultura humana. Isso se explicita enormemente nos livros, nas artes, na música, nos filmes e séries, nas peças teatrais, na vida cotidiana. Parece haver uma pressão monstruosa em fazer as pessoas crerem que essa é a ÚNICA forma saudável de relacionamento afetivo-sexual. O que não é verdade. E a não monogamia veio para mostrar isso. NÃO estou, aqui, dizendo que a monogamia deva ser abolida. Até porque, se a não monogamia fosse tão compulsória como a monogamia, esta seria tão nociva e prejudicial quanto a outra. E o que a não monogamia defende é a liberdade afetivo-sexual do ser humano. Liberdade, inclusive, de optar pela monogamia, caso seja o desejo do seu coração. E fugiria do seu escopo, que é a liberdade e não imposição de regras.
A luta pela liberdade afetivo-sexual do ser humano teve suas bases no século XIX, com o termo AMOR LIVRE; termo, esse, utilizado para descrever o movimento social que refuta o casamento e despreza estereótipos, acreditando no amor sem posse, controle ou nome. Ele surgiu enraizado no seio do movimento anarquista, conjuntamente com a rejeição da interferência do Estado e da Igreja na vida e nas relações pessoais dos indivíduos. Segundo alguns defensores do amor livre, tanto homens como mulheres tinham direito ao prazer sexual; coisa que, na era vitoriana, era profundamente radical. Os movimentos de amor livre lutaram fortemente contra as leis que impediam a vida em comum de um casal não casado face ao Estado e à Igreja, bem como as leis que regulavam o adultério, o divórcio, a idade de consentimento, o controle de natalidade, a homossexualidade, o aborto e as leis sobre obscenidade, que limitavam a discussão pública de certos assuntos sobre a sexualidade humana.
Nas décadas de 1960 e 1970 do século XX, o termo amor livre teve maior repercussão através da Contracultura e, especificamente, do Movimento Hippie. Porém, ele teve seu significado erroneamente diminuído em sua complexidade à promiscuidade. O que não é verdade. O que essa geração propunha era a liberdade amorosa; liberdade, essa, não regulável por leis.
O termo amor livre caiu em desuso e foi substituído pelo termo não monogamia. E esse termo abrange várias formas de relacionamento não monogâmico. São alguns deles: anarquia relacional, poliamor, relações livres, relacionamento aberto....
Convém enfatizar, aqui, que não monogamia NÃO É sinônimo de promiscuidade, putaria, busca desenfreada por prazer sexual! Isso os monogâmicos já fazem há muito tempo.... Nada disso! É muito, MUITO MAIS que isso. Não monogamia trata-se de construção e fortalecimento de vínculos, de afetos. Trata-se da criação de redes de apoio e de afeto. De viver o sexo e, principalmente, as relações amorosas de forma livre, igualitária e sem sentimentos negativos de posse, inveja, insegurança e/ou ciúmes. É desenvolver a comunicação, o respeito entre os afetos. Tornar a vida de todos os envolvidos mais palatável, mais leve e agradável. É amar sem amarras, preconceitos, pré-julgamentos.... É viver o amor de forma plena!
Mas aí você se pergunta: "Mas não existe ciúmes na não monogamia?" e eu te respondo sucintamente: SIM! O ciúme é um sentimento negativo presente em todos os seres humanos; assim como a inveja, a ira, o egoísmo, a tristeza.... Volta e meia pode surgir esse sentimento, que é muito ligado à insegurança ou medo de perder o(s) afeto(s). Mas ele pode ser controlado e, até mesmo, praticamente eliminado através do diálogo, do estabelecimento de acordos e da sinceridade e do respeito entre todos os afetos. Um detalhe importante: a traição, nos relacionamentos não monogâmicos, vem da quebra de acordos, da perda da confiança e não, necessariamente, de uma relação sexual extraconjugal. A traição ocorre quando um dos afetos não cumpre o combinado, fazendo os outros afetos perderem a confiança nele. E mais um detalhe importante: quem tem o desejo de trair, trai em QUALQUER modelo de relação; seja ela mono ou não.
O que eu quero dizer à vocês, meus amores, é que os seres humanos devem ser LIVRES para escolher qual - dentro das suas vivências, da sua personalidade e de acordo com seu coração e sua mente - tipo de relacionamento que se adequa melhor a eles. Se for a monogamia, beleza! Se for a não monogamia, beleza, também! Desejo que você, amado leitor, leia esse texto e reflita e pondere - em sua mente e em seu coração - se a forma que você ama e se relaciona com as pessoas é a que lhe faz bem física, emocional e psicologicamente e escolha e viva intensamente o caminho que você escolher.
Beijos não monogâmicos de luz!
Paz!
PARA SABER MAIS:
FONTES:
Sigmund Phoda