BERNARDO
Ele passa por minha porta e em direção ao elevador o vejo ir embora. Mais uma noite terminada e uma sensação de saudade recém conquistada.
Deito na cama abro o Tinder e de perfil em perfil vejo um catálogo de novas pessoas a se conhecer. Para direita uma chance e para esquerda uma recusa.
Me perguntam se ele não é o suficiente, se não é o bastante e toda vez sou capaz de me confundir com o que falam. O suficiente pra quê? O bastante pra quem?
Falam como se ele fosse refém de me acompanhar em minhas obrigações sociais, horários livres ou momentos de carência. Como se um devesse se manter submisso às demandas e necessidades do outro.
O mundo é cheio de pessoas para que conheçamos as mais maravilhosas e não aprisionemos a nós uma que pelo destino acabou por nos encontrar.
Sou capaz de amar-lhe tanto que sua liberdade é meu prazer. Desejo que a mesma sorte que teve ao me conhecer também tenha com várias outras pessoas tão maravilhosas, se não mais.
Sou tão feliz de ter a sorte de viver ao teu lado que em nenhum momento consigo parar de desejar que viva novas experiências e no meio dessas sinta a adrenalina de novos desejos e paixões.
Meu amor por ti é admirar teu jeito belo, sincero e puro de ser. Pessoa tão boa que nunca sozinha seria eu capaz de dar te a felicidade e o amor que merece conquistar.
No meu jeito rude de regar amor em semente de desapego as vezes olho pro seu rosto tentando descansar em minha cama e questiono ao universo e o destino que bondade cometi em minha vida para por sequer um segundo ter a alegria de te ter ao meu lado.
O desafio mais difícil a que já me submeti foi reconhecer que no meio desse jogo de liberdade havia a chance de no baralho te perder. De carta em carta meu medo não era vir uma melhor, mas de a mão mudar.
Algumas cartas se abaixam, outras se somam, mas a mão sempre se altera. No meio de toda essa pressa, desespero e deplorável competição percebi que todo jogo se submete ao inesperado já esperado.
E assim passando as cartas em minha mão penso o quão livre é perceber que nada é eterno e nosso amor só é bom enquanto dura. Saber que assim como a vida aquilo em algum momento termina e tudo tem de ter sido feito em máxima exposição.
Permitir a nós mesmos o sofrimento de perder e parar de nos iludir com o amor eterno e romântico é apenas entender que somos todos parte integrante da manutenção social da indústria da paixão.
Para de tentar moldar a ti alguém para estar sempre ao teu lado. Para de te imaginar casado, construindo família e envelhecendo acompanhado da mesma pessoa de hoje. Você não é esta pessoa e ninguém verdadeiramente feliz será.
As discussões, desconfortos e renúncias farão de cada um dos dois alguém mais complexo e distante do que seria a pura, plena e simples felicidade.
Por que razão algum dia nos disseram que o romance deveria se submeter à abrir mão do que poderíamos fazer quando sozinhos para ter um alguém ao nosso lado? Que tipo de lógica nos convencem que não devemos ser felizes sozinhos para termos a felicidade do outro quando acompanhados?
Não sei como me meti nessa confusão e prazer da leveza e do pesar de não se prometer. De alguma forma cheguei aqui e sinto que conquistei o sentimento mais sincero que sou capaz de lhe oferecer.
Durante a noite converso sobre meus medos e inseguranças. Minha mente se torna assustadoramente calma. Se mostra vulnerável e efêmera. Somos todos seres admiráveis sob o certo olhar mas também somos sensíveis.
O mínimo pensar e agir é o máximo mutar. São tantas as boas pessoas por aqui que passei a desejar ser em suas vidas nada além de bem.
E assim eu o amo. E amo tanto que ele é pouca gente pra receber o quanto tenho para dar. Ele é bom. E tão bom que sou pouca gente pra ser o bem que merece receber.
Por isso toda noite sou capaz de deixá-lo ir na esperança de que algum dia o mundo conseguir fazê-lo feliz como o merece ser.
Fernanda Bonfim

Nenhum comentário:
Postar um comentário