quarta-feira, 30 de junho de 2021

DIA INTERNACIONAL DO ORGULHO LGBTQI+: ORGULHO DE QUÊ?

Dandara dos Santos, travesti morta em 2017


Agora é madrugada do dia 30 de junho; último dia do Mês do Orgulho LGBTQI+. O dia 28 de junho (anteontem) é marcado como Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+. Nesse, que deveria ter sido um dia de valorização, de enaltecimento das vivências, das lutas, da resistência e da influência dessas pessoas na cultura, nas artes e na sociedade, vemos, infelizmente, muitos casos de violência, abusos e mortes dessa população tão marginalizada, tão invisibilizada, vítima de barbáries e discriminação.

Ao longo dos anos, vem se perpetrando atos abomináveis de violência contra pessoas LGBTQI+. Atos de tanta perversidade e horror que gelam meu sangue; ainda mais no frio de 3°C que faz aqui, nessa madrugada, em Passo Fundo. Frio, esse, que assola tantos moradores de rua; aos quais estão incluídos travestis, transexuais e tantos outros LGBTQI+ que foram sumariamente expulsos de casa apenas - e somente apenas - por serem LGBTQI+....

Vou elencar aqui alguns casos, que ocorreram dos últimos anos para cá, de violência contra pessoas LGBTQI+. Vamos começar pela madrugada do dia 2 de dezembro de 2014. A casa da travesti Pâmela de Souza Coelho, na época com 23 anos, e localizada no bairro Cidade Morena, na saída para São Paulo, na cidade de Campo Grande, no MS, foi queimada por um homem; homem, esse, desconhecido por ela. Fazendo com que ela perdesse o pouco que ela tinha. Em 15 de fevereiro de 2017, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza, no Ceará, a travesti Dandara dos Santos, de 42 anos, foi brutalmente espancada com chutes, murros, chineladas e golpes de pedaços de pau. Sem condições de se manter em pé, foi obrigada a entrar num carrinho de mão; após ela entrar no mesmo e ser levada para outro local, foi assassinada a tiros. De forma cruel e torpe. No final do mês de janeiro de 2019, a travesti Quelly da Silva, como era conhecida, de 35 anos, foi morta e teve o coração extirpado da caixa torácica, após o criminoso ter tido relações sexuais - de forma não consentida, aposto - com a vítima, que se encontrava sozinha no bar de propriedade dela e da família do companheiro dela, no bairro Jardim Marisa, na região de Campo Belo, em Campinas, São Paulo. Além de deixá-la com o rosto lesionado e o tórax aberto, colocou uma imagem sacra na cavidade aberta e levou dinheiro e pertences do local, além do coração extirpado; o qual enrolou em um tecido e escondeu em um móvel de sua casa. No 25 de junho desse ano - numa quinta-feira - uma mulher trans, identificada apenas como Roberta, teve 40% do corpo queimado e um braço amputado, após um adolescente ter ateado fogo na mesma, no CAIS Santa Rita, zona central de Recife, em Pernambuco. Quando a Polícia foi acionada e chegou ao local, encontraram a vítima ainda em chamas. Ela está internada em estado grave no Hospital da Restauração.

São duas e meia da madrugada e não consigo conter a ira e o horror em ter de ler e digitar em meu velho notebook esses casos aterrorizantes. Eles são uma amostra de como nossa sociedade hetero, cis, branca, burguesa, judaico-cristã tem tratado as minorias. Especialmente a minoria LGBTQI+. Enquanto estava redigindo esse texto, por várias vezes tive de parar e, andando pela casa e fumando meus cigarros, conter meu ímpeto de esmurrar as paredes e chorar copiosamente pelas vidas vilipendiadas, torturadas, humilhadas, violentadas e brutalmente mortas por uma sociedade pútrida, que cheira à morte e à perversão; que violenta e ceifa a vida de pessoas inocentes e, ainda por cima, defende ferozmente seus algozes. Isso sem contar com o abandono de jovens LGBTQI+ por parte de suas famílias, o estupro de lésbicas para, segundo seus estupradores, uma "correção sexual" de suas vítimas; estupro, esse, vindo até de familiares delas e a estigmatização dos assexuais. Sem contar, também, com famílias que espancam e matam filhos e familiares gays, por considerarem uma "mácula" na imagem da familia e outras crueldades.

Apesar de vislumbrar-se um tímido raio de arco-íris rumo à esperança, é gritante o quão forte e arraigado é o preconceito, a invisibilização, a marginalização e a intolerância contra essa parcela da população brasileira. Pois, para a maioria da população nacional, se você não é hetero, cis, branco, judaico-cristão e provido de posses, você tem uma arma apontada, por essas mesmas pessoas, para sua cabeça; engatilhada e pronta para desferir o disparo mortal. Sua vida vale menos que um pedaço de merda.

Analisemos três dos quatro casos citados. Primeiro, o de Dandara dos Santos, em 2017. Dandara, segundo a irmã dela, era muito querida por todos e não deixava de fazer um favor sequer às pessoas. Ela afirmou, também, que era vítima de preconceito. “Ela nunca dizia um não. Ela podia estar cansada, mas era sempre prestativa. Para onde a gente pedia para ela ir, ela ia. Ela nunca dizia um não. Sobre os preconceitos, ela foi para o Bairro Jurema e uns caras bateram nela. Ela foi até para o hospital”, relatou Sônia Maria, em reportagem ao G1 Ceará (o link dessa e de outras notícias postarei no fim do texto). Vejam bem; se ela era tão querida por todos, ela era tão prestativa e ajudava tanto as pessoas, o que essas pessoas, as quais ela ajudou, estavam fazendo quando ela estava sendo linchada e morta? Assando um bolo para comer no café da tarde? Fazendo uma oração para o seu santo de devoção, pedindo paz e justiça e por um mundo melhor? Piada! Porque não foram defendê-la de seus algozes? Se essas pessoas a quem Dandara ajudou tivessem um pingo - UM PINGO! - de humanidade e a socorressem quando ela estava perdendo a vida, essa morte teria sido evitada. Aposto que essas mesmas pessoas ajudadas pela Dandara, que morreu por causa da intolerância e do preconceito, devem estar até hoje rezando pela sua boa alma. Cristãos de araque! Não fizeram nada e ficam aí posando de santos.... Nojo dessa gente! O caso da Quelly, em 2019, foi ainda mais assustador. Sorrindo - veja bem; SORRINDO! - e dizendo frases desconexas, Caio Santos de Oliveira disse o seguinte: "Ele era um demônio, eu arranquei o coração dele. É isso. Não era meu conhecido. Conheci ele à meia-noite". Demônio é VOCÊ, Caio, seu monstro! O que o Caio fez não tem explicação lógica nem sequer justificativa. Foi um ato atroz, desumano, monstruoso, indefensável. Mas, claro, sempre tem quem defenda o "coitadinho". Afinal a vítima não era hetero, não era cis, não era branca, etc.. Era apenas um ser humano descartável, à vista da sociedade "padrão". E sabem o que aconteceu, meus amores? Ele foi ABSOLVIDO! Pois é! Com a alegação do psiquiatra de ele ter esquizofrenia - palhaçada! - ele foi internado pelo prazo mínimo de dois anos num hospital psiquiátrico. Caio alegou que ouviu um "chamado de Deus", dizendo que Quelly era um "demônio".... Gente! Uma pessoa como essa não é esquizofrênica; é PSICOPATA! Não deve estar mais no convívio da sociedade; conforme dito pelo companheiro da vítima, com quem conviveu por três anos e afirmou que Quelly era uma pessoa tranquila.... Esse psicopata é um risco ambulante! Enfim.... E esse ano, temos a infelicidade de ver, mais uma vez, um jovem, um adolescente atear fogo em uma pessoa viva, sem aparente motivação. Agora, foi com uma mulher trans. Vocês se lembram do índio pataxó, que teve 95% do corpo queimado e faleceu horas depois de chegar ao hospital, né? Um dos algozes do líder indígena era menor de idade! Para vocês verem, leitores amados, que a juventude de hoje está tomando rumos perigosos. Há mais de duas décadas, foi um índio. Nos dias de hoje, uma mulher trans. E com isso, as minorias vão sendo cada vez mais massacradas. Na certa, ele vai ser internado numa, como se chamava no meu tempo (calma, não sou tão velho assim), unidade da FEBEM dessas da vida, cumprir o resto da adolescência lá e, quando fizer 18 anos, será reintegrado à sociedade. Mais um facínora, mais um psicopata nas ruas! E os passadores de pano cristãos, de flanela em punho, prontos para relativizar tudo....

Para não dizer que só falei de mulheres trans e travestis, aí vai mais dois casos de violência contra outras pessoas LGBTQI+: Em uma noite do ano de 2014, uma jovem foi abordada por dois homens e foi estuprada por eles, por ser e ter a aparência de lésbica. E há cerca de um semana atrás, no dia 22 de junho deste ano, o jovem Gabriel Carvalho Garcia, gay, de 22 anos, estava em uma barbearia, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, se preparando para cortar o cabelo quando um homem, mascarado, aproxima-se de Gabriel e efetua de dois a três disparos contra a cabeça do jovem.

E esses foram alguns dos casos que aconteceram com a comunidade LGBTQI+ nesses últimos anos. E se não pararmos para refletir e lutar pela resistência e pelos direitos, pela igualdade e pelo respeito que são diuturnamente negados à essa comunidade, vamos continuar vendo pessoas LGBTQI+ sofrendo e sendo martirizadas. E um pequeno raio de esperança veio de onde? Das crianças! Através da propaganda do Burger King, onde mostra crianças falando sobre a existência de pessoas LGBTQI+ e relações homoafetivas. Mas acha que isso sensibilizou a população? Pelo contrário, meus queridos! Gerou uma puta onda de ódio no país todo! Simplesmente porque utilizaram crianças para falar de amor e respeito para com as pessoas LGBTQI+; crianças, essas vindas de lares LGBTQI+! Foi só o Burger King fazer isso que o gado começou a mugir e balançar os chifres.... Gente de todos os lados - até do lado defendido! - estava contra a campanha, dizendo que era errado "doutrinar" crianças, que era errado fazer elas falarem e militarem por coisas que a mente delas não compreende, e blá blá blá.... Baboseira! Primeiro, a idade das crianças mostradas no vídeo era perfeita para o entendimento dessas coisas. Mesmo que de forma simplificada. Segundo, as crianças devem, sim, saber desde cedo a respeitar e querer o bem de TODAS as pessoas, inclusive as LGBTQI+. Assim como devem, desde cedo, começar a ter educação sexual nas escolas. Não para aprender a transar; isso é mito! Mas sim para entenderem o que é abuso, de onde vem e como evitar. Porém, isso é assunto para outro texto. Terceiro, se não é para "doutrinar crianças", então o que o Pastor Silas Malafaia (sempre ele) estava pensando quando também pegou um monte de crianças e fez elas dizerem um monte de merdas preconceituosas na frente das câmeras? Isso também não se faz, pastorzinho.... E com essa onda de ódio vindo de todos os lados, vemos que a luta e a resistência LGBTQI+ estão muito longe de acabar e que a paz e o respeito para essa comunidade ainda é um sonho a ser concretizado. Paz e respeito que serão conquistados com luta! Luta e união de todas pessoas que acreditam que TODOS SÃO IGUAIS!

Fiquem, agora, com a lindeza da campanha do Burger King....

Paz!


Sigmund Phoda


FONTES:

https://ponte.org/jovem-gay-e-assassinado-a-tiros-dentro-de-barbearia-em-sp/

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/01/21/homem-e-preso-em-campinas-apos-matar-e-guardar-coracao-da-vitima-em-casa.ghtml

http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/apos-agressao-dandara-foi-morta-com-tiro-diz-secretario-andre-costa.html

https://catracalivre.com.br/cidadania/mulher-trans-e-queimada-viva-em-recife/

https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/homem-que-arrancou-o-coracao-de-travesti-e-absolvido

https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/travesti-tem-casa-queimada-e-afirma-que-incendio-foi-criminoso

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/11/02/vai-virar-mulher-de-verdade-estupro-corretivo-vitimiza-mulheres-lesbicas.htm

https://www.opovo.com.br/noticias/economia/2021/06/25/campanha-do-burger-king-brasil-com-depoimentos-de-criancas-sobre-lgbts-gera-polemica-nas-redes-sociais.html

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