quarta-feira, 30 de junho de 2021

A GORDOFOBIA POR TRÁS DO DISCURSO DA SAÚDE


Há um tempo uma amiga que está cursando nutrição postou uma foto em que mostrava o interior do corpo de duas pessoas, uma obesa e outra não. Nesta imagem estava escrito: “Obesidade é uma doença e deve ser tratada como tal”. Essa imagem me impactou muito, não porque sou obesa, porque não sou; mas porque na hora eu não sabia o que pensar daquilo.

Obesidade é um problema de saúde, isso é inquestionável, mas o que me incomodou tanto foi o discurso que aquela imagem estava tentando legitimar. Pois bem, muitos de nós sabem o que é gordofobia e muitos não acreditam que ela exista, mas independente do que acredite, quero propor uma reflexão. Sinta-se a vontade para logo que terminar este texto, desconsiderar tudo o que eu disse, se assim achar melhor.

Sempre que reencontramos alguém que não víamos há muito tempo reparamos em cada mudança; no jeito de agir, falar, nas expressões e claro, questões estéticas como o peso. Não há uma mulher que não tenha ouvido um “Nossa, mas você engordou, não é?” e junto desta frase tenha recebido um olhar de desaprovação e julgamento. Logo depois há todo um discurso velado de preocupação com a saúde, em que se pergunta sobre o que a pessoa está comendo, se já começou alguma dieta e se se consultou com algum nutricionista.

Podemos acreditar que isso realmente é uma preocupação com a saúde da pessoa, afinal, alterações bruscas no peso podem afetar fortemente nosso organismo. Mas a preocupação com a saúde se mostra como um disfarce em cenários como este, porque isso não acontece quando reencontramos algum conhecido que perdeu muito peso. No máximo pergunta-se qual foi a dieta que ela seguiu. Prova disso são os relatos de dietas absurdas que são seguidas e recomendadas e não opinamos sobre a saúde da pessoa.

Uso de um exemplo pessoal. Há alguns anos passei por um momento muito difícil na minha vida e deixei de me preocupar com a minha alimentação. Quando contei para uma “amiga” sobre os meus problemas e preocupações, ela me respondeu com um entusiasmado “Pelo menos tudo isso serviu pra você emagrecer um pouquinho”. Onde está a preocupação com a saúde? Ignora-se totalmente que para se “emagrecer um pouquinho” deixei de consumir nutrientes importantes e meu corpo começou a consumir o estoque de gordura que havia no meu organismo.

Não preciso levar a extremos para me fazer entender mesmo que eu veja diariamente diversas meninas contando as horas que estão sem comer. Porque o problema está no que consideramos normal. O problema está no que já se tornou banal, já faz parte do cotidiano e das interações sociais. Como deixar de ir em um loja com forma menor que as calças que seriam 42 viram 44, pelo simples fato de se recusar a entrar em uma calça 44.

Aquela imagem que foi postada no Facebook pode ter um efeito incrível de nos alertar sobre os perigos da obesidade, mas claramente tinha o intuito de questionar os movimentos sociais que pregam que o gordo é lindo. Fica até complicado mensurar a irresponsabilidade da pessoa que publicou aquela imagem. Por mais que essa talvez não tivesse maldade no que fez, esqueceu que o “gordo” que tanto ouvimos não é o obeso.

Quando falamos de “ser gordo” estamos entrando em uma área complicada. Nesse discurso entra uma mulher que deveria pesar 60 quilos e se impede de chegar aos 65 porque isso para ela já é ser gorda. Assumir que “ser gordo é lindo” é primeiro considerar essa grande parcela da população que se reprime de viver diversas experiências pela possibilidade de “ser gordo”.

Se quisermos ir mais além e falar das pessoas que são consideradas obesas, ainda acho que não devemos continuar com a política de beleza que os oprime. Porque neste discurso desconsideramos diversas pessoas que estão passando por procedimentos médicos e fazem uso de medicamentos para manter sua qualidade de vida. Por mais que a obesidade lhes ofereça risco de vida, há coisas muito mais perigosas para se enfrentar. Imagino que estas pessoas que sofrem tanto não merecem nosso julgamento as dizendo que não são bonitas.

Toda pessoa merece ter sua beleza exaltada independente das condições. Novamente, o discurso médico está nos cercando de hipocrisia e legitimando nossos preconceitos. A ciência tem valor inestimável para a humanidade, mas não podemos perder o senso crítico na análise das interações sociais.

Fernanda Bonfim

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