LGBTQFOBIA E TRANSFOBIA MATAM! E VOCÊ? O QUE FAZ A RESPEITO?
Estamos no fim do dia 22 de junho. Portanto, há cerca de uma semana para findar o mês referente ao orgulho LGBTQIAP+; um mês dedicado à conscientização e defesa dos direitos das transexuais, travestis, gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais, assexuais, não-binários, crossdressers, drag queens e outros que, por apenas existirem, serem quem são e lutarem por respeito e igualdade de oportunidades e direitos, são humilhados, ridicularizados, marginalizados, excluídos, estuprados, agredidos de forma física, verbal e psicológica e mortos de forma cruel, desumana e torpe. E mesmo acontecendo toda essa gama de acontecimentos atrozes com essa parcela invisibilizada da sociedade brasileira, muitos estão insensibilizados perante aos fatos. E pior: consideram normal e aceitável, incentivam e proliferam essa cultura nefasta e desprovida de humanidade.
Nesses últimos dias, aconteceu dois notórios casos de transfobia envolvendo a gamer e engenheheira de sistemas Michelle Brea Soares, mulher trans, lésbica e demissexual, que foi ridicularizada e chamada por pronomes masculinos durante uma live de criadores de conteúdo "cristão" (uso aspas porque, na minha opinião, eles NÃO são cristãos) e Marcella Pantaleão, também mulher trans, gamer e criadorA de conteúdo digital que foi chamada de "3 pernas" pelo Youtuber gamer Buxexa, em uma live de um popular jogo de tiro. Esses casos horrendos de transfobia repercutiram negativamente contra muitas trans e travestis famosas, como A criadora de conteúdo digital, assexual e travesti Alina Durso, que recebeu inúmeras críticas e, até, ameaças de morte, por ela denunciar esses CRIMES - sim, são CRIMES! - contra essas duas mulheres.
Vamos ao primeiro caso: Michelle estava participando de uma live a convite de um grupo "cristão" - reforço as aspas porque eles NÃO são cristãos; são um bando de escrotos sem humanidade - para falar de Identidade de Gênero. A transmissão dessa live foi comandada por um autodenominado "cristão conservador" - que de cristão não tem nada! - Samuel Zalton e nessa live estavam presentes a deputada estadual pelo estado de Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo (PSL), o vereador mineiro Nikolas Ferreira (PRTB), a influencer evangélica Ingred Silveira, entre outros párias. Na transmissão em questão, ela foi colocada contra a parede, interrogada sobre questões científicas e confrontada com argumentos pelos seis integrantes da live. Na grande maioria da vezes, Michelle foi tratada como se fosse um homem, sendo referenciada por pronomes masculinos pelos seis acéfalos que estavam presentes - mesmo elA solicitando aos participantes (ou criminosos?) a respeitarem sua identidade e seu gênero; o que deixou A Michelle bastante constrangida.
Olhem o que o "cristão" Samuel Zalton falou para A Michelle, em dado momento da criminosa transmissão, negando-se a usar o pronome feminino para referir-se À Michelle (o que é ERRADO!):
- "Existe algo que nós cristãos acreditamos que é a liberdade de expressão. Nossa religião está em uma premissa, em princípios. Eu acredito que você respeita todas as religiões. Na nossa religião não existe essa distinção de sexo e gênero. Então, com relação aos meus princípios, da maneira que levo minha vida, eu devo te tratar sem negar meus princípios."
Noutro momento, o vereador Nikolas Ferreira solta a seguinte "pérola": "Vou botar o JB aqui só de boa. Vou botar o Bolsonaro", disse ele. Vale lembrar que Bolsonaro, além de ser defensor da tortura e da Ditadura Militar, de dizer que não estupraria uma mulher por ela ser "feia" e de não ter nenhum - eu disse NENHUM! - apreço pelas minorias, ele é extremamente LGBTQfóbico e fez medidas em seu governo para dificultar ainda mais a vida dessas pessoas, como tirar as pessoas LGBTQ das diretrizes dos Direitos Humanos e criticar o STF por ter decidido criminalizar a homofobia. Mas isso fica para outro texto. E nunca, NUNCA é demais dizer: FORA BOLSONARO!
Voltando ao assunto.... Michelle, por sua vez, mencionou que este é o seu nome legal e que, por isso, seu nome e gênero deveriam ser respeitados. ElA disse: "O artigo quinto da Constituição Federal prevê a liberdade de pensamento e de expressão. Da mesma forma que ela prevê essa tua liberdade religiosa e direitos e deveres iguais entre todos os brasileiros. Só que o limite da liberdade de expressão é a lei. Quando você incorre criminalmente em algumas coisas por causa da sua fé, isso é um problema".
Pouco após ela entrar na live, ela reforçou sua fala, dizendo: "Meu nome legal é Michelle". Michelle lamentou, também, o fato de que sua identidade de gênero não foi levada em conta no debate. ElA disse, ainda: "Quando entrei... a primeira coisa que vejo é você e a Ingred me tratando no masculino. A gente pode conversar no nível do respeito, ou na base da porrada. Eu gosto de conversar no nível do respeito, mas se você não consegue respeitar o meu gênero, a gente já começa difícil".
Mesmo assim, apesar de toda a contextualização e de todas as explicações, a gamer foi chamada preconceituosamente de "O Michelle". Mas ela não ficou calada e rebateu: "Minha certidão de nascimento diz isso, minha identidade diz isso, então eu sou 'A Michelle'". Outra situação que chamou a atenção foram as risadinhas e o tom de deboche usados durante todo o tempo da transmissão.
Veja, na íntegra - são mais de 5 horas - a transmissão da live:
Vamos ao segundo caso. O Youtuber gamer, streamer e, desde o domingo passado, dia 20, ex-jogador do Fluxo - time de Free Fire - Pedro "Buxexa", proprietário de um canal como quase 2 milhões de seguidores, foi convidado para a live do Welington "Rachaxp" no sábado, dia 19, na plataforma de streaming BOOYAH!, de propriedade da Garena, criadora do Free Fire. Durante a transmissão, Bruno "Nobru" - streamer e CEO da Fluxo - conversava com Marcella Pantaleão, no Instagram; chegando a comentar com um emoji de coração em uma foto dela. Foi esse o motivo de toda a chacota e zombaria voltada para Marcella e Nobru. Mas, claro, a maior vítima foi a Marcella. Buxexa e Racha zombaram dela o tempo todo, a chamaram de "ruiva de três pernas" e disseram que era era um homem. Entre outras coisas. Tudo isso ao som de altas gargalhadas e deboche.
Isso acabou custando a demissão de Buxexa do time de Free Fire Fluxo e a perda da parceria da Garena com ele e Racha - o que achei pouco - no domingo passado, dia 20 de junho, como foi anteriormente citado. Em vez dele consertar o erro (crime) que ele cometeu, ele fez alguns vídeos se justificando pelo que aconteceu.
Casos como esses não são os primeiros e nem serão os últimos, infelizmente. E, a partir desses casos, dessas denúncias de crime, percebemos como boa parte da população age. Apesar da manifestação popular em apoio às meninas vítimas desses crimes, muitas pessoas agem como se mulheres trans e travestis fossem uma praga, um vírus pior do que o da COVID-19. E fazem de tudo para invisibilizá-las, humilhá-las, invalidar suas identidades e corpos, violentá-las e ameaçá-las de morte - isso quando não as matam a pauladas, tiros ou por qualquer outro método torpe. Isso é algo que deve ser combatido até as últimas consequências. E esse combate deve começar desde cedo; na educação de base. Nossas crianças devem aprender que, assim como existem pessoas brancas, negras, amarelas e indígenas, existem pessoas com sexualidades diferentes, corpos diferentes e vivências e visões de mundo diferentes. E o mais importante de tudo: aprender a, se não conseguir amar essas pessoas, respeitar e validar suas identidades e corpos. A tratarem essas pessoas como seres humanos dignos de respeito, de oportunidades, de convívio social e, também, de amor e carinho por parte de todos.
Agora passam das 5 e meia da manhã do dia 23 de junho de 2021. Faltam 7 dias para encerrar o Mês do Orgulho LGBTQ. Passei a madrugada vendo vídeos, lendo matérias e escrevendo esse texto para vocês. Regado à Coca-Cola e Marlboro Vermelho. E entre um gole e outro, entre uma tragada e outra, pensei muito sobre esse assunto tão doloroso e espinhoso. E vejo o quanto estamos, ainda, perto da Era da Barbárie; onde só o mais violento, o mais forte, o mais brutal vence. E enquanto a paz vai sendo depenada pena a pena, o sangue inocente de mulheres trans, travestis e da população LGBTQ verte em direção ao seio da Mãe Terra. Creio que por muito tempo, ainda veremos lésbicas e assexuais sendo estuprados; gays, trans e travestis serem ameaçados, espancados, torturados e mortos em ruas, terrenos baldios e lugares ermos de toda nação. Isso se a cabeça dos poderes políticos não mudar. Se a cabeça das autoridades policiais e militares não mudar. Se a cabeça das lideranças e comunidades religiosas - especialmente as cristãs - não mudar. Se a cabeça da sociedade civil não mudar. Mas os poderes políticos não pensam em nós. As autoridades policiais e militares não pensam em nós. As lideranças e comunidades religiosas não pensam em nós. A sociedade civil não pensa em nós. E, para pôr mais gasolina nessa fogueira insana de ódio e preconceito, temos, no posto mais alto do país, um ditador, um carrasco, um misantropo, um torturador genocida que, em quase 4 anos, mostrou a verdadeira face brasileira: uma face horrenda, putrefata, bestial. Trabalhada no ódio, na fobia, na misoginia - e uma pitada de misandria, também -, no preconceito, na violência, no abandono, no descaso.
Acendo um cigarro e tento me confortar, pensando que tempos melhores haverão de vir.... Dou uma tragada e, com um suspiro doído, vejo que o caminho será cada vez mais duro. Pois, mesmo com toda a tecnologia e toda a carga de informação instantânea que enviamos e recebemos toda hora, todo dia, recebida em nossos dispositivos eletrônicos, vivemos um retorno à uma era de obscurantismo sociocultural. Uma Idade das Trevas Digitais. Onde as mulheres trans e travestis são as bruxas da vez. Prontas para serem queimadas. E quem apoia elas, também está na mira da Nova Santa Inquisição. Mas não penses tu que é um processo novo, repentino. Vem se gestando na mente coletiva da sociedade dominante, burguesa e elitista brasileira há décadas. Agora, com a entrada do Bolsonaro, que essa onda de ódio e preconceito tomou mais vulto, ganhou cara e corpo. Todo cuidado é pouco. Nossas vidas - especialmente a vida de pobres, negros, índios, homens e mulheres trans, travestis e população LGBTQ - estão valendo menos que um pedaço de bosta. E eu digo; se o COVID-19 não nos matar, se a fome não nos matar, se o governo e as autoridades não nos matarem.... A intolerância vai nos matar.
Passam de 6 e meia da manha. O dia está nascendo. Mais um dia de luta, mais um dia de fé, mais um dia de coragem. E mais um dia para lembrarmos que qualquer vida, por mais ínfima que seja, vale a pena. Que qualquer forma de amor vale a pena. Que a luta pela Liberdade, pelo Amor, pela Paz e pela Vida é árdua, pesada, extenuante.... Mas que vale a pena ser lutada. Ainda mais em um pais onde, em 2020, a percentagem de pessoas trans mortas chegou a atingir 41%.
Parem de matar pessoas trans e LGBTQ! Vivam e deixem viver!
Paz!
Sigmund Phoda
BIBLIOGRAFIA
https://www.terra.com.br/gameon/streamer-buxexa-e-desligado-do-fluxo-por-comentario-transfobico,3755761ed36d5f0e8b0d6044fda233107gf395y8.html Acessado em 22 de junho de 2021 às 22:53
https://hugogloss.uol.com.br/brasil/engenheira-sofre-transfobia-em-live-com-influencers-e-politicos-cristaos-caso-gera-revolta-e-pedidos-de-respeito-a-vitima-assista-e-entenda/ Acessado em 22 de junho de 2021 às 22:51

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