quarta-feira, 30 de junho de 2021

IDA E VOLTA, VOLTA E IDA




A televisão muito no alto faz meu pescoço doer depois de alguns minutos. Puxo a cadeira um pouco mais pra trás na tentativa de não ficar tão tensionado, mas a imagem vai diminuindo e só vejo as figuras se movendo, não sei mais quem é o quê. É melhor voltar a ler.

Tiro a Bíblia da gaveta esquerda da mesa e coloco sobre o móvel de madeira. Começo a ler uma das páginas marcadas na plena certeza de que em pouco tempo vou cochilar. Até que alguém me grite “Seu José!” do outro lado do portãozinho. Aquela pequena entrada que já foi “um portãozinho branco do lado do teatro” agora foi pintada de chumbo.

Deve ser oito horas da noite e uma das meninas do prédio passa por mim. “Olá, Seu José! Tudo bom?”. Respondo confiante “Tudo ótimo”. Aquele pequeno roteiro de cada morador que passava por ali só o era dito por simpatia, ou alívio de consciência. Dizem que cumprimentar seus empregados é uma virtude. Pois bem.

Ela passa de braço dado com um menino um pouco mais alto e um tanto magro. Os dois parecem com um pouco de pressa, talvez tenham hora marcada em algum lugar. É segunda a noite, será que esses meninos saem à essa hora de uma segunda? Ah, são universitários, devem ir pra algum bar beber.

Alguns adultos vão chegando do trabalho, com a cara cansada e só esperando por um banho. Ainda tem a louça pra lavar, se não não dá pra fazer a janta. Será que fica muito ruim comer só um pão? Pedir uma pizza pode não ser tão ruim. É segunda feira a gente merece.

Algumas velhinhas passam para fazer compras de emergência no mercado em frente. “Eu comprei a carne, a batata palha e até o arroz, mas esqueci o molho de tomate! Acredita?! Agora vou ter que voltar lá e enfrentar essa fila só por causa do molho”. Sem querer ser um tanto quanto chato, mas não é como se elas tivessem muito o que fazer, não é mesmo?

Não sei mais se ainda são 21 horas ou já são 22. A menina “simpática” chega na portaria com outro menino. Da altura dela, talvez um pouco menor, ruivo e meio gordinho. Eu poderia dizer que é fortinho, mas também é gordinho. Parece meio desajeitado, acho que nunca teve aqui. Não lembro de tê-lo visto. Entram no elevador com um uníssono “boa noite”.

Talvez seja mesmo uma boa noite. O clima tá quente, uma correntezinha de ar entra pela porta e passa pelo corredor. Até a avenida parece mais calma. Alguns ônibus freiam próximos ao prédio de tempos em tempos, mas não reparei nenhum barulho de moto até agora. Ah, era muito cedo pra falar isso. Algum dos homens de sempre tiveram que passar aqui correndo.

O canal da igreja tem alguns pastores falando ferozmente. Deve ser interessante ir em um templo desses. Tanta gente em comunhão com aquilo. Me parece uma sensação boa sentir que todos pensam coisas parecidas com o que você pensa. Tem tanta coisa acontecendo nesse mundão que não dá pra acompanhar. Essas ideias que aparecem por aí, só arrumam moda.

Queria pelo menos tá deitado. Essa cadeira não é muito ruim, mas me cansa ficar sentado tanto tempo. Também seria uma boa comprar um lanche aqui do lado. Será que alguém se importaria se eu pedisse? Ah, é melhor deixar quieto, também não devo comer essas porcarias. Quando eu chegar em casa como minha janta e tá tudo resolvido.

Já são 23:30 e o menino inseguro sai do elevador. Ajeitando o cabelo ruivo parece meio envergonhado, mas contente. Mexe no celular como se tivesse muita coisa acontecendo naquele pequeno aparelhinho. Apita uma, duas, três vezes, até que ele aperta alguns botões e só escuto ele vibrar. Pronuncia um “boa noite” baixo e passa pela porta com pressa.

Ele definitivamente tava meio perdido. Mas já deve tá indo pra casa, não é possível que ainda vá sair. A menina ficou pra trás, será que tá tudo bem? Bem, ele não parecia chateado, não devem ter brigado. Também não demoraram muito. Sempre me pergunto quantas coisas acontecem ao mesmo tempo dentro dessas dezenas de apartamento.

As senhorinhas, os adultos e universitários. Cada um tão diferente do outro. Agora a meia noite, o que devem estar fazendo? A maioria deve tá dormindo, mas não é nada certo. Dona Deise pode estar cozinhando ainda pro seu filho. Enquanto a moradora do 404 deve ter acordado no meio da noite pra tomar seu calmante. Pediu há pouco tempo para tocar pro vizinho debaixo pedindo pra fazer menos barulho.

Tá aí, quem faz uma festa em uma segunda feira a noite? A semana acabou de começar. Será que eles não trabalham? Devem fazer algo da vida além de estudar. Será que estudam mesmo? Os vejo sair daqui hora ou outra e demorar a voltar, dá tempo de terem algumas aulas, mas mantenho minha dúvida.

A menina sai do elevador com outra roupa. Bem menos arrumada. Uma calça jeans e uma camisa que costuma usar pra ir no mercado. Passa ainda mais apressada que mais cedo. Parece tentar desbloquear o celular, sem muito sucesso. Assim que abre a porta de vidro antes do portão, um carro preto para próximo à calçada. Deve ser um Uber.

Esse negócio é meio perigoso. Você não sabe quem é e não tem nem um ponto certo pra procurar o cara depois caso alguma coisa dê errado. Não sei se confio não. Todo mundo usa isso como se fosse resolver todos os problemas de trânsito. “Ah, é mais rápido que o ônibus e nem é muito caro”. Queria saber o que aconteceu com o discurso do “transporte coletivo”.

A verdade é que ninguém se importa com essas coisas não. Usar ônibus e deixar de comer carne, são duas coisas que adoram vender o discurso mas tem muita gente que só faz isso pra economizar uma grana. Já viu quanto que tá o quilo da carne? Com o mesmo dinheiro dá pra comprar bastante ovo.

Poxa, um mexido a essa hora ia bater muito bem. Arroz, ovo, cebola, linguiça e um pouco de pimenta. Consigo até sentir o cheiro. É a refeição clássica da madrugada. Se eu não tivesse que tá aqui ia fazer um panelão desse, com certeza. Deixava até a janta de lado. Jéssica ia ficar meio chateada, mas são desejos, ela iria entender.

Essas horas são as mais chatas. Já passou da meia noite mas ainda não acabou o horário. Já é o dia seguinte, tá um pouco mais próximo do fim. Mas não posso me contentar com isso, ainda tem muito o que enfrentar. Só espero que dessa vez o caminhão do mercado não fique apitando de 5 em 5 minutos. O tempo não passar é horrível, mas me deixa com meu silêncio.

Duas horas da manhã e um carro branco para na calçada. Já vi esse carro por aqui. A menina sai dele, meio tonta, me parece só cansaço mesmo. Se encosta de leve no portão e aperto o botãozinho branco na parede pra ela entrar. Passa pelo primeiro espaço da entrada e abre a porta de vidro com certo esforço.

“Boa noite, Seu José”. “Boa noite”. Sinto que deveria saber seu nome. Passou tantas vezes por aqui. Mas acho melhor não perguntar, logo depois vou esquecer e perguntar pela segunda, terceira e quarta vez é sempre mais vergonhoso.

Espera o elevador como quem só pensa na cama pra deitar. Duvido que vá dormir agora. Talvez toda essa viagem de ida, volta, ida e volta tenha cansado. Espero que sim. Essas crianças precisam dormir um pouco, se não vão acabar surtando. Acham que tudo é brincadeira, tudo é festa. A vida tá aí e é bom prestar atenção, porque de repente ela passa e é só mais uma noite de arrependimentos.

Mas quem sou eu pra falar o que ela deve fazer… É bem grandinha, sabe o que faz da vida. Espero eu. Serão estes os novos adultos? Não me parecem ter jeito pra isso. Ainda bem que não vou ficar por muito mais tempo aqui.

Fernanda Bonfim

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