quinta-feira, 1 de julho de 2021

O FEMINISMO NA TELEVISÃO ABERTA



Na noite da quinta feira passada estreou a nova temporada do programa Amor & Sexo com o tema “feminismo”. Os internautas aproveitaram a animação que o BBB tinha proporcionado às redes sociais e continuaram acompanhando a programação da emissora. Desde o primeiro minuto da abertura, a hashtag #Amor&Sexo só subiu, até alcançar o topo dos trending topics brasileiro.

A Globo conseguiu logo de cara o que mais queria: audiência. O Twitter foi a loucura, endeusando ou fazendo a caveira do programa e da emissora. Os extremos ficaram claros, odiavam ou amavam. Fazia tempo que eu não via usarem tanto “feminismo liberal” como algo pejorativo. Saudade dos termos feminismo branco e baunilha. É inevitável que eu acabe entrando nessa pauta, afinal, o programa de pouco mais de 50 minutos conseguiu levantar debates desde interesses da mídia até “suavização” dos movimentos sociais.

Acompanho há um tempo a página do Geledés Instituto da Mulher Negra e adoro os questionamentos que levantam. Quando vi vários dos meus amigos do Facebook compartilhando um texto delas de crítica ao programa global fiquei super intrigada pra ver o desdobramento do acontecimento do ponto de vista das escritoras da página. E mesmo já sabendo o que esperar, fui de mente aberta, disposta a compreender e aceitar um ponto de vista que provavelmente seria diferente do meu. Desde antes da publicação do texto eu pretendia escrever outro para explicar meu posicionamento e opinião, e ele me permitiu uma base que acho ótima para construir minha linha de pensamento.

O primeiro ponto levantado foi sobre a libertação sexual das mulheres e como que tratar da vontade da mulher em dar no primeiro encontro serve às vontades dos homens. Me questiono se esse posicionamento não vai contra algo que ainda é difícil para as mulheres: reconhecerem que fazer ou não sexo na primeira noite é decisão delas e deve ser livre de julgamentos. Isso inclui o julgamento de ter que se mostrar livre ou contra uma política de libertação sexual, de deverem fazer sexo na primeira vez porque são livres, ou não deverem porque são contra satisfazer as expectativas masculinas. “ Pros homens pouco importa se você se sente livre ou não, o importante é que ele faça sexo com você.” Concordo com essa afirmação, realmente não faz diferença nenhuma pros homens se nessa situação elas se sentem livres, só que não é pra fazer diferença pra eles, mas sim pras mulheres.

Logo depois trataram de um tema que não poderia ser mais contraditório dentro do movimento feminista. A regulamentação da prostituição. “ O tema foi pincelado e mostrou apenas um lado, assim fazendo a regulamentação parecer legítima e urgente.” Realmente é uma pena que não tenham tido mais tempo e espaço para debater tal tema, mas será que isso também não é culpa do sufoco criado dentro do próprio movimento? Sempre que esse tema é levantado há uma resistência impressionante e o discurso da vivência na maioria das vezes vai embora ralo abaixo. As prostitutas que querem e pedem para debater sobre são simplesmente desmerecidas e ignoradas, por serem lidas como “resultado máximo de exploração do patriarcado”. Mas elas continuam sendo mulheres e parte do movimento, então a pauta é legítima e se pararmos pra ver quantas mulheres estão morrendo por abusos deste meio perceberíamos que é um tanto quanto urgente (pelo menos o debate).

Esse foi quase que um gancho para o que foi uma tentativa da ressignificação do termo “vadia”. “Ressignificar um termo pejorativo não retira o peso dele.” Achei bastante curiosa essa fala, porque o movimento LGBT trabalha com a ressignificação dos termos “viado” e “bixa”, e o movimento negro com a ressignificação do termo “preto”. Quando o discurso é a materialização da ideologia e uma palavra não tem o significado esperado, o “contexto” é questionado. Se vadia, preto, bixa e viado foram ressignificados como algo a se orgulhar ou pelo menos de não se ter vergonha, a ideologia pode ser questionada.

Quem está dentro do movimento, ou pelo menos dos debates, sabe que toda essa história de liberdade sexual, ressignificação de termos e direito à nudez é considerado pauta de feminista liberal e por isso é menosprezada, ridicularizada e muitas vezes ignorada. Sem querer entrar muito nisso — porque talvez seja melhor escrever um texto inteiro sobre — eu gostaria de lembrar que feminismo branco/baunilha/liberal também faz parte do movimento; e seria muito bom ter essas mulheres respeitadas, porque de inferiorização já basta o sistema patriarcal.

“A inclusão dos temas só interessa por causa do lucro”. O lucro é visado em toda e qualquer situação. O que está sendo desconsiderado ou desmerecido é a influência que o programa teve no conhecimento popular. Se a maioria das críticas alerta para um “feminismo que nos aprisiona”, que seria um feminismo básico, esqueceram que muitas mulheres e homens se quer sabem o que é o feminismo.

Mesmo o programa não indo tão longe quanto pretendiam é inegável que ele abriu portas para o debate. Um debate mais justo do que foi visto até agora. Mulheres que não conheciam a pauta da regulamentação da prostituição e homens que não entendiam o significado da marcha das vadias agora possuem a informação básica para superar os preconceitos que tinham e não propagarem desinformação pelas redes.

O empoderamento serve sim para lucrar, mas assim como lucram propagando informação sobre feminismo, empresas de fármacos lucram vendendo pílula anticoncepcional, empresários com creches, automobilísticas com mulheres dirigindo, políticos com mulheres votando, etc. Homens se beneficiam e sempre se beneficiaram da independência feminina, seja econômica ou socialmente. Quando isso for um problema será melhor desistirem da luta. Estão entre a cruz e a espada, desistem de suas pautas e a injustiça se mantém ou continuam a luta enquanto se apropriam de suas conquistas.

Crônica publicada em 1° de fevereiro de 2017

Fernanda Bonfim

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