LOIRA DA MORON, MONUMENTO À FUTILIDADE *
No final do ano passado (2009), uma das ruas mais populares
de Passo Fundo – a Rua Moron – tornou-se cenário de uma polêmica, no mínimo,
inusitada. Foi publicada, em um caderno
voltado à cultura e comportamento jovem, de um periódico bastante difundido
nesta cidade, uma matéria em que o assunto em questão era sobre o alvoroço
causado por inúmeros e constantes comentários a respeito de uma determinada
mulher que chama a atenção de todos que passam pela já citada rua. Uma mulher loira, de atributos físicos
impecáveis. Uma verdadeira obra de arte
ambulante, conforme palavras escritas no jornal.
E o mais interessante
é que essa matéria não ficou em apenas um artigo; ela teve continuidade. Várias
edições e várias páginas foram dedicadas a uma mulher, da qual, nada se sabe.
Nome, profissão, idade, procedência.... Tudo sobre ela é uma grande incógnita.
Alguns acham que ela nem mesmo exista, que seja apenas uma invenção saída de
mentes sacanas e desocupadas; outros, acreditam que ela seja apenas um golpe
publicitário para que um número ainda maior de pessoas lesse esse caderno. Ou, até mesmo, uma manobra para encobrir
algum fato realmente relevante, mas que fosse proibido de ser publicado, como
na época da ditadura, em que os jornais faziam uso de receitas culinárias ou
poemas de Camões, por exemplo, para não publicarem opiniões e notícias
desfavoráveis ao regime.
Mas, esperem aí! Em primeiro lugar, a ditadura acabou em 1985,
com a volta das eleições diretas para presidente. E em segundo lugar, o
caderno, já citado, é de variedades (E algumas futilidades, também...); ou
seja, não há nada a ser publicado no mesmo que necessitasse ser encoberto. Nada
mesmo!
Seja lá como for, o surgimento da história da “Loira da
Moron” serviu para deixar milhares de pulgas atrás das orelhas dos cidadãos
passofundenses, fazendo com que estes exercitem seu lado “voyeur”. Sim, porque, desde a publicação da primeira
matéria sobre a citada loira, começou uma espécie de “cruzada” atrás da mulher
que tem instigado a mente de tantos habitantes dessa urbe tão carente de
assuntos sérios a serem divulgados e discutidos. Orkut, e-mail, Twitter e
celulares – inclusive as câmeras destes aparelhos! – são algumas das ferramentas utilizadas nesta
cruzada insólita e totalmente desprovida de sentido. Sim, caro leitor. Insólita. Insana.
Totalmente non sense, baby. Tanto alvoroço, tanto rebuliço por conta de uma
mulher, apenas? E apenas por ser bela e gostosa o suficiente para despertar o tesão dos homens e a inveja das mulheres? Como diria Drummond, êta mundo besta,
meu Deus...! E para completar o disparate, o periódico que lançou a estória
criou uma promoção para eleger a Loira da Moron, a beldade mor de Passo Fundo
(mais uma vez, palavras extraídas do jornal em questão). Ou seja, as loiras que
se acharem qualificadas a receber tão importante e enaltecedora premiação,
enviarão um e-mail para a redação do jornal com um perfil completo, foto (De
corpo inteiro? Traje de banho? Gala? Nua, talvez?) e uma justificativa para que
a moçoila em questão receba o título de “Loira
da Moron”. Vê se pode?! E tudo isso para ganhar, além do nobre título de
“Musa mor da beleza fútil passofundense”, uma repaginada completa no visual já
“estonteante” da mocinha e uma noitada de respeito na balada mais fodona da
cidade.
Gente, é incrível.... É como eu sempre digo: “A boçalidade
humana não tem limites”. Depois de décadas de luta contra o preconceito, a
discriminação e os rótulos pejorativos, como mulher-objeto, objeto de desejo,
objeto sexual, fútil, cabeça-de-vento, e outros tantos dos quais eu não me
recordo, aparece uma coisa estúpida dessas; coisa essa que, a meu ver, só serve
para tipificar todas as mulheres (E as loiras, em especial) como um mero pedaço
de carne; ou seja, uma mulher que quer ser vista, desejada e bem-aceita nessa
nossa sociedade mesquinha, hipócrita, sádica e filha-da-puta, ela tem que ser
tão gostosa, mas TÃO gostosa, que deixe todas as outras mulheres roendo suas
unhas bem-tratadas e arrancando seus sedosos cabelos de tanta inveja e, também,
deixe os homens babando e de pau duro de tanto tesão. Inteligência,
personalidade, simpatia, afetividade.... Isso tudo é descartável, sem importância.
O que importa, mesmo, é ter um corpo escultural e uma mente árida, vazia.
Pois é, meus caros, essa é a estória. Como minha mãe sempre
diz, não há o que não haja...
* Texto redigido em janeiro de 2010. Editado em 24 de
fevereiro de 2021.
Sigmund Phoda

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